A corrupção é um mal que vem do berço

Festa de aniversário da minha afilhada, num rincão do subúrbio carioca. A família toda presente, os amigos da aniversariante também. Bastante gente, música muito alta, comida e bebida a dar com pau, tudo muito gostoso. Festão!

Canta-se o parabéns (o início do fim de todas as festas) e a mãe da aniversariante informa a todos que há muito mais docinhos do que aqueles expostos na mesa. Aliás, a máfia da cozinha já me havia informado que a quantidade de doces era tal que serviria com fartura o dobro dos presentes – e talvez ainda sobrasse um pouco para o enterro dos ossos. Ela pediu, então, para que ninguém atacasse a mesa.

Ri na hora, por dentro, do apelo. As crianças não resistiriam àquela tentação. E não é que obedeceram? Nenhuma delas avançou na mesa. Aquilo não poderia ficar daquele jeito. Alguém tinha que desmoralizar o ridículo apelo, alguém tinha que demonstrar a audaz e doutrinadora desobediência. E, se ninguém o fazia, esse alguém seria eu – com a cara de pau e a gordice que me são peculiares.

Dirigi-me à mesa, sob os olhares incrédulos de algumas crianças e comecei a comer os docinhos, um a um, dando-me ao luxo de escolher antes de pegar. Até que lá pelo quinto doce, uma menina de não mais que sete anos de idade me cutucou o braço e disse: “não pode pegar, tem que esperar“.

Eu já estava com o sexto doce na mão quando ela terminou a frase. Parei, olhei para o doce, olhei para ela, olhei para o doce de novo, olhei para ela de novo e, num estalo de genialidade, resolvi por à prova a menina e a minha teoria que diz que corrupção o brasileiro já nasce sabendo – pode até não colocar em prática, mas já nasce sabendo. Entreguei o tal docinho a ela e peguei outro para mim. Comemos os docinhos simultaneamente, um olhando para o outro. Nem foi preciso pedir o seu silêncio, ela já lho me havia prometido com os olhos.

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6 Comments

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  1. O ser humano nasce puro e bom, é o adulto sem vergonha que o corrompe.

    No caso, eu só fiz o teste, que acusou positivo. A menina já estava corrompida.

  2. Vergonhoso!
    Que mudança de princípios!
    Garanto que não foi essa a educação que recebeu em casa nem na escola que estudou.
    E ainda corrompeu uma criança!
    Se eu visse tal ato dava-lhe uma boa chinelada.

    O técnico de enfermagem que colhe o sangue do paciente para exame não o contamina. Só faz o teste. Se dá positivo, a culpa não é dele. O paciente pegou a doença em outro lugar, de outra pessoa.

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