Carta ao Presidente da Câmara dos Deputados

Barra do Piraí, 07 de julho de 2013.

Exmo. Sr. Presidente da Câmara dos Deputados

Deputado Federal Henrique Alves,

Ou V. Exa. não entendeu, ou V. Exa. entendeu mas se fez de desentendido, confiando no próprio taco e fazendo o papel de bastião da desonestidade e da impunidade que imperam neste país.  Por isso, e mantendo a fidelidade ao meu jeito direto e simples de ser, falar e agir, vou tentar ser o mais didático e objetivo possível, para que V. Exa. não possa mais dizer que não sabe, não entende, ou seja lá o que for.

Entenda primeiramente, V. Exa., que existe uma diferença entre a vida privada de cada um e a vida pública.  V. Exa., por ser deputado federal, representante dos interesses de inúmeros eleitores de uma determinada região do país, deve gastar boa parte do seu tempo no exercício da sua vida pública.  Compromissos oficiais, sessões parlamentares, almoços executivos, cerimônias públicas…  Tudo isso é trabalho.  E, como o seu trabalho é relacionado ao exercício do interesse e à gestão da coisa pública, é razoável que os gastos necessários para que V. Exa. consiga desempenhar o seu papel de representante da sociedade seja arcado pela sociedade que V. Exa. representa, ou seja, pelo público.

Contudo, esse trabalho não ocupa 100% do seu tempo, até porque ninguém é de ferro.  Seu sono, seu lazer, nada disso é público.  Nessas horas, V. Exa. faz o que quiser, com quem quiser, do jeito que quiser – mas não com recursos públicos.  Porque, ao contrário do que se costuma pensar neste país, o bem público (e aí se inclui tanto o dinheiro quanto a praia, tanto as terras quanto os aviões da Força Aérea, tanto as lixeiras quanto os carros oficiais, tanto as canetas dos gabinetes quanto os cartões corporativos) não é aquele que não pertence a ninguém, mas aquele que pertence a todo mundo indistintamente.  Por isso, V. Exa. não pode se apoderar e/ou fazer uso dessas coisas individualmente na sua vida privada.

Por isso, não recrimino, absolutamente, que V. Exa. tenha, como tantos, adquirido ingressos para ser mais um brasileiro, como milhares de outros brasileiros, a cantar o hino e torcer pelo Brasil na final da Copa das Confederações, na semana passada.  Era um domingo, clássico dia dedicado ao lazer, ao ócio, à família, mesmo daqueles sobre cujos ombros pesam as maiores responsabilidades.  No papel de V. Exa., eu talvez fizesse o mesmo.  Aliás, que jogão foi aquele!…

Voltando ao assunto, o seu erro – e, me perdoe V. Exa., mas já estando no décimo primeiro mandato consecutivo na Câmara dos Deputados, V. Exa. já deveria saber isso de cor e salteado, de trás para frente e de cabeça para baixo – foi usar a coisa pública para fins privados.  Isso não é admissível – especialmente vindo de alguém que ocupa a singela função de Presidente da casa que, em tese, mais representa o povo brasileiro.  Vá lá que V. Exa. imprima um boleto bancário particular vez por outra, ou que peça ao seu motorista para dar uma paradinha no banco entre um dois compromissos oficiais para sacar dinheiro, enquanto ele espera com o ar condicionado do carro ligado…  Mas o que o senhor fez foi demais!  E o mau exemplo dado por V. Exa. não se apaga com o mero ressarcimento dos cofres públicos – até porque os valores pagos por V. Exa. não guardam nenhuma relação com o dano que V. Exa. provocou nas contas públicas.  E eu tenho lá as minhas dúvidas se esse pagamento não vai ser feito com verba de gabinete…

Aliás, eu gostaria de lembrar V. Exa. que seu ato não é inédito na nossa história republicana recente.  Há exatos dez anos, a então Ministra Benedita da Silva, que, curiosa e coincidentemente, hoje é sua colega na Câmara dos Deputados, fez algo parecido: usou dinheiro público para fazer uma viagem privada, ou seja, que não tinha rigorosamente nada a ver com o exercício da sua função, do seu trabalho, de representante do interesse público.  Ela, como V. Exa., ao ser descoberta, e somente após ser descoberta, propôs-se a devolver aos cofres públicos os valores utilizados indevidamente.  Mas isso não era o bastante para sanar o mau exemplo.

Para casos assim, V. Exa. e também ela, enquanto deputados federais, representantes do povo brasileiro, criaram uma lei que destina penalidades severas a pessoas que agem dessa maneira: malversando o dinheiro público com a audácia dos larápios, o silêncio dos cínicos e a naturalidade dos falsários.  É a lei de improbidade administrativa.  E, para que V. Exa. não me acuse de falar besteira, aviso que a sua colega Benedita da Silva, mesmo restituindo o dinheiro ao público, foi condenada a completar o depósito dos valores gastos, a pagar multa de três vezes o valor gasto (para aprender que isso não se faz) e foi proibida de contratar com o poder público ou de receber benefícios fiscais de qualquer natureza, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócia majoritária.  Só não perdeu o cargo porque já havia sido demitida.  E deu sorte, porque o juiz foi bonzinho e achou que isso era suficiente para ela aprender e para desestimular outros, como V. Exa., a cometer o mesmo erro.  O juiz ainda podia ter cassado os direitos políticos dela por até dez anos.  Se V. Exa. duvida de mim, saiba que eu não inventei nada disso.  Pode conferir o processo: 0042784-07.2003.4.01.3400.

Trocando em miúdos essa conversa toda, não é pelos vinte centavos.  Não é por causa do dinheiro que V. Exa. está errado.  É pelo que o seu erro significa, é pelo mau exemplo, é pelo mau hábito.  Até porque, não fosse um repórter cumprir seu ofício investigativo e seu dever cívico, ao fazer a denúncia, V. Exa. jamais tomaria a iniciativa de reparar o erro.  Gente como V. Exa. não tem a menor condição de lidar com o público – seja a gestão de uma lixeira, seja a gestão de uma casa parlamentar.  Por isso, faça como o Zero Dois: peça para sair, não só da Presidência da Câmara dos Deputados mas também do mandato de Deputado Federal e da vida pública.  Não é de gente como V. Exa. que o Brasil precisa para melhorar.  Muito pelo contrário.

Caso V. Exa. ainda não tenha entendido, da próxima vez, se precisar, estarei à disposição para desenhar.

Leandro.

Anúncios

2 Comments

Add yours →

  1. Falou tudiiiiiiiiinho! Será que ele vai entender?

    Não sei. Vai que ele tem alma de loira?

  2. Por isso que eu falo que continua tudo a lesma lerda…

    E como! Enquanto vagabundo não tomar um tombo sinistro, exemplar, nada vai mudar. E depois que isso acontecer, talvez mude, talvez não.

Você quer comentar? Clique aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: