A boa e velha Vila Rica

Imagine que você mora numa cidade tida como grande.  Imagine agora que perto de lá (para os mineiros, bem perto mesmo, logali; para os normais, meio longe, quase duas horas de carro numa estrada não tão boa assim) há uma cidade menor para onde muita gente vai todo final de semana.  E imagine também que esta cidade menor não é tão pequena assim – ela é uma cidade universitária, com ruas estreitas, ladeiras infindáveis (tanto no comprimento quanto na inclinação) para todos os lados.  Agora imagine que, em meio a essas ruas estreitas, aquele mundo de gente que saiu da sua cidade grande para passar o fim de semana lá nessa cidade menor (embora não tão pequena assim), carros disputam lugar para estacionar, ônibus circulam como elevantes numa loja de cristal e pessoas mal têm espaço na calçada para caminhar.  Visão do inferno?  Não.  É Ouro Preto.

Depois de ler esse relato dramático, qualquer um vai dizer: “lá vem ele de novo falar mal de Minas Gerais“.  Calma!  Não é bem isso.  Excetuando as ladeiras, pelas quais eu realmente sinto uma infindável repulsa, Ouro Preto é um lugar muito legal, para onde eu voltaria mais e mais vezes, não fosse a distância do Rio de Janeiro.  Mesmo esse caos não é suficiente para tirar o extremo interesse que a cidade pode gerar em qualquer visitante.

A cidade é animada, muito em função da sua população jovem, residente, em grande parte, em Repúblicas (casas que funcionam como alojamentos coletivos, alugadas e divididas entre os estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto).  Tem muito a oferecer ao visitante (só as igrejas e os museus já seriam suficientes para dois dias inteiros de estadia, sem contar que Mariana fica ali do lado) e é muito bonita.  No entanto, visitá-la, especialmente durante o período letivo, quando todos os estudantes estão lá vivendo suas vidas normalmente, e ainda mais no fim de semana, quando muita gente de BH se despenca para Ouro Preto para passar o dia ou o final de semana, é realmente complicado.  Requer esforço para sair bem cedo de BH e paciência para achar um lugar para estacionar o carro – e para enfrentar algumas filas também.

Mas não vá a Ouro Preto para passar apenas um final de semana.  É pouco.  Porque Ouro Preto não é um fim em si mesma.  De lá, além de Mariana, é possível conhecer outras localidades dos arredores, seja para comprar artesanato (a Paula Basques certa vez deixou a dica de ir a Santo Antônio do Leite, distrito de Ouro Preto, para adquirir artesanato direto do produtor, bem mais em conta), seja para tomar banho de cachoeira (vá a Lavras ou a Cachoeira do Brumado), seja apenas para descansar ou fazer atividades ao ar livre.  Eu, que mal passei um dia lá, apenas matei a saudade e vi os principais atrativos turísticos da cidade – com muita correria.

Museu da Inconfidência
Museu da Inconfidência

Vi o Museu da Inconfidência, que possivelmente é a principal atração turística da cidade.  Já li, em algum lugar, que durante algum tempo ele foi o museu mais visitado do Brasil.  Acho isso pouco provável, mas vale o registro da lenda.  E ele estava ainda mais bonito do que quando eu o conheci.  O acervo não é lá grandes coisas: eu duvido que aquela bandeira seja realmente original ou que a trave de madeira seja realmente da forca que mandou para a cucuia a vida do alferes famoso.  O prédio é bem mais valioso.  E está modernizado, com elevadores e amplos armários para guardar volumes.  A visita ainda é meio confusa – mais confusa ainda quando ele está lotado.  Os vigilantes pouco polidos, rudes até; o atendimento ao público tem muito o que melhorar.  Uma mineirinha sorridente orientando os visitantes a guardar os volumes no armário com aquela simplicidade e aquela cadência na fala típica da região cairia muito bem.  A cafeteria/lojinha é muito boa e foi inevitável “perder” algum tempo e alguns trocados ali, entre um lanche e um souvenir.  Do lado de fora, um coral se apresentava.  Parei para assistir e ver Felícia dançar ao som da música.

Matriz de Nossa Senhora do Pilar
Matriz de Nossa Senhora do Pilar

Não vi a Igreja do Pilar, a Catedral de Ouro Preto.  De todas as igrejas da cidade, é a que eu acho mais bonita e, sem sombra de dúvidas, a mais impressionante, por ser a única completamente revestida de ouro no seu interior.  No entanto, por não ficar nas adjacências da Praça Tiradentes – o centro do centro da cidade -, não é tão badalada pelos turistas.

Vi a Igreja do Carmo, logo ali ao lado do Museu da Inconfidência.  Sempre achei curioso o fato de a igreja se situar de costas para a Praça Tiradentes, e não de frente.  Não sei se isso tem alguma conotação histórica, ou se foi opção de seus construtures, de deixá-la de frente para o precipício, podendo ser admirada de longe, por quem olha para a cidade a partir das montanhas situadas do lado oposto do vale.  A igreja em si continua bela.  Aproveitei que um casamento estava prestes a começar (a noiva já aguardava do lado de fora da igreja) para entrar e admirar seu interior talhado em pedra sabão.  Mais bonito que a igreja, só mesmo a sacristia – aberta ao público a partir de um corredor do lado esquerdo da nave (esquerda de quem olha de frente par ao altar, a partir do pórtico de entrada da igreja).  Sou fã daquela pia e daquelas pinturas do teto.  Devem ter sido feitas por Aleijadinho e Ataíde, respectivamente, eu imagino.  E creio que acabei atrasando o casamento, quando aluguei o padre para uma conversa…

Não vi o museu de arte sacra, situado nos fundos dessa mesma Igreja do Carmo (próximo ao Museu da Inconfidência).  Na minha lembrança, nesse gênero, ele só perde para o Tesouro Museu da Sé Catedral de Braga, em Portugal – e muito mais pelo tamanho do acervo do que pelo capricho da exposição.  E olha que eu já vi muitos museus de arte sacra no mundo…

Teto da Igreja de São Francisco de Assis
Teto da Igreja de São Francisco de Assis

Vi a Igreja de São Francisco de Assis, aquela cuja fachada tem formatos arredondados, incomuns, idealizada por ninguém menos que Aleijadinho.  Ela é a prova de que o cara era realmente diferenciado, uma espécie de Borromini brasileiro.  Sou radicalmente contra esse negócio de cobrar ingresso para visitar igrejas.  Igrejas, na minha opinião, são templos que podem/devem ser visitados por fiéis livremente, seja por que motivo for: seja para rezar, seja para encontrar um namorado, seja para admirar suas obras, seja para se refugiar da chuva ou do frio.  Ali, novamente, eu me deparei com essa nefasta prática, que se aproveita da fragilidade do turista para coagi-lo ao pagamento.  Está certo que a manutenção da igreja, enquanto patrimônio paroquial, é uma iniciativa louvável e que deve ser respeitada.  No entanto, a contribuição, na Igreja, deve ser voluntária.  E isso se aplica tanto aos paroquianos, que tem a obrigação primeira de manter sua igreja; ao poder público, que também tem essa obrigação, já que a tombou como patrimônio artístico e histórico; e aos visitantes, que podem fazê-lo, segundo sua consciência, voluntariamente.  Enfim, mais incrível que a igreja só mesmo a pintura do seu teto, a obra prima-master-ultra-sinistra de Mestre Ataíde.

Não andei no trenzinho que liga Ouro Preto a Mariana.  Para uma visita de um único dia, não dá para fazer o passeio, por causa dos horários bastante restritos.  Acho que esses passeios deveriam acontecer de manhã cedo e ao final do dia.  Esse negócio de colocar o trem para andar entre 10h e 15h pode até ser um grande negócio do ponto de vista logístico, mas não é nada eficiente para quem quer aproveitar a atração turística como transporte entre as cidades que a linha férrea liga.  Esse passeio vai ficar para a próxima, já que ele não existia quando eu conheci Ouro Preto, há uns oito anos.

O que, aliás, não é mau.  Pelo contrário.  Reforça a vontade de retornar, se possível, com mais tempo e mais calma.  E serve também como desculpa para voltar.

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5 Comments

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  1. Menino, e não é que você falou tudo???? Até a parte sobre a cobrança de “ingresso” nas Igrejas.
    Pena que não tirei fotos do rush de lá; depois te mando as que tenho, do Centro Formigueiro, rs.

    Lá?… Ouro Preto? Centro Formigueiro?

    • Isso, Ouro Preto, esqueci de citar. Só estou na dívida de conhecer Mariana; aliás, você foi na tal mina de ouro de lá?

      Não fui não. Dizem que é um passeio legal.

  2. Ouro Preto está na lista de “must go” das minhas viagens. Fui enfaticamente cobrado por isso recentemente.

    Vale a pena, mas prepare-se para as ladeiras (tênis muito confortável e com sola bastante aderente é fundamental).
    PS. Cuidado com as cachoeiras do entorno da cidade… Elas atraem turistas cariocas para dentro da água subitamente.

  3. Só avisa a data pra gente tudo se encontrar lá! rsrsrsrs

    Está na hora da arte da dissimulação.

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