Bando de mal educados!

Sábado passado estive no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, para o encontro do Papa Francisco com a sociedade civil brasileira.  Papa Francisco com letras maiúsculas, sociedade civil brasileira com letras minúsculas, não por acaso).  Até onde fui informado, o tal encontro foi realizado a pedido do próprio Papa, já que ele não constava da programação original da Jornada Mundial da Juventude, tal como concebido nos seus primórdios pelo Papa Emérito Bento XVI.  E o que era para ser um encontro da pluralidade que compõe a sociedade brasileira, acabou se revelando uma tietagem da elite carioca (com uns pitacos de fora) que não quis sujar o pé de areia nem se misturar com o povão para ver o Papa de perto.  A começar por mim, confesso.

Presentes ao Theatro Municipal estavam todas aquelas pessoas que pensam ser autoridades mas não são: deputados, vereadores, ex-ocupantes de cargos públicos, inclusive e principalmente aqueles acusados de atrocidades aos cofres públicos e improbidades administrativas mil:  Moreira Franco, Ministro-chefe da Secretaria de Aviação Civil da Presidência da República e ex-governador do Rio de Janeiro, que deixou o Estado falido para o seu sucessor e que ocupou, apenas com a ex-ex-esposa (Celina Vargas do Amaral Peixoto, neta de Getúlio Vargas e filha de Amaral Peixoto), um camarote onde caberiam seis pessoas; Myrian Rios, ex-esposa de Roberto Carlos, deputada estadual, autora de declarações e propostas polêmicas antiinclusivas contra gays e acusada de improbidade administrativa e outros crimes por usar verbas públicas para abastecer carros particulares; e tantos outros.  Aliás, só para constar: a voz dela é mais grossa que a da Ana Carolina.

Presentes ao Theatro estavam também militares uniformizados, exibindo suas estrelas sobre os ombros, mas que circularam pelos corredores com a máxima discrição possível; presentes estavam artistas (Ana Botafogo inclusive, eterna primeira bailarina do Theatro) e intelectuais, escritores e poetas (vi Ferreira Gullar, sentado na primeira fileira do Balcão Nobre); jornalistas a trabalho ou não (se bem que jornalistas estão sempre trabalhando, mesmo que não estejam trabalhando); ali também estavam funcionários do Theatro (nada mais justo), índios vestidos a caráter (ou nem tanto vestidos ou nem tanto a caráter), cônsules, embaixadores…  Ops!  Cônsules e embaixadores não fazem parte da sociedade civil brasileira, certo?  Pois bem, muitos deles se sentaram nas primeiras fileiras, reservadas, e ainda subiram ao palco no final para presentear o Papa.  Achei aquilo muito estranho…

Enfim, tudo isso para dizer que embora eu tenha verdadeiramente me emocionado de ver o Chicão tão de perto (um privilégio, na acepção mais fiel da palavra), não pude deixar de notar certas coisas que me mataram de vergonha.

Coisas como a falta de noção das pessoas: imagine que, por força das circunstâncias, eu fui a primeira pessoa a chegar na frente do Theatro, lá pelas 7h da manhã.  O isolamento ainda nem estava montado, e eu já estava lá, com ingresso no bolso e a ansiedade na alma.  Caminhei até a esquina da Av. Rio Branco para ver os peregrinos a caminho de Copacabana e, quando voltei, meia dúzia de pessoas já se amontoavam numa pequena fila.  Entre elas, estava Ana Botafogo.  Outras poucas pessoas chegaram até às 8h, não mais que outra meia dúzia.  Apesar de estarem todos em seus mais elegantes trajes, todos buscaram, de qualquer maneira, garantir lugares privilegiados na fila.  Tentaram, sem medir esforços, marcar a existência da fila e seus respectivos lugares ante os demais presentes.  “Fica aqui na fila que eu vou lá na tenda pegar o ingresso” – balela!  Todos tinham que ir pessoalmente na tenda se credenciar e pegar seu ingresso.  “Imagine que abusrdo, não havia preferência para idoso!” – na boa: se idoso tivesse preferência, só eu ficaria de fora da fila preferencial.

E o mais interessante de tudo isso é que eu, um subversivo por natureza, fiz questão de não respeitar a “fila”.  Fiquei ao lado dela, a não mais que dois metros.  E ninguém, absolutamente ninguém, me perguntou se eu também estava esperando para entrar no Theatro, numa atitude inclusiva.  Talvez suspeitassem que eu fosse um segurança, talvez apenas quisessem me manter afastado para garantir um lugar melhor na fila.

Pior mesmo foi quando começou a chover forte, e todos subiram as escadarias para se abrigar na pequena marquise próximo aos portões de entrada do Theatro.  Cada um foi para um portão.  E mais gente começou a chegar, ignorando completamente a existência de uma ordem velada de preferência para a entrada, fruto da chegada antecipada ao local.  Foi a senha para se instaurar um pequeno caos.  As pessoas que haviam chegado antes começaram a demonstrar certo desespero e tentaram, sem nenhum sucesso, organizar uma nova fila para entrada.  Em tempo, cabe a explicação: não havia lugares marcados dentro do Theatro para assistir o evento.  A organização das pessoas se limitava a indicar os setores do Theatro onde elas deveriam se acomodar.  Daí o desespero e o correspondente esforço dos primeiros em garantir tudo que tinham naquele momento: a prerrogativa de serem os primeiros a entrar no Theatro por terem sido os primeiros a chegar.  Mal sabiam ou suspeitavam que, nos termos dos protocolos e da sutileza de Francisco, era dia de brigar pelos últimos e piores lugares.

E não terminou aí.  Os três portões da fachada do Theatro se abriram simultaneamente.  A malfadada fila foi para o brejo, para o meu regozijo subversivo e perverso interno, para a alegria de alguns e para o desespero de outros.  As cenas seguintes foram de puro humor e terror: correria, acotovelamento, rispidez, falta de educação, caos, desespero…  Era um tal de correr para pegar lugar, “tem gente sentada aí?“, “guarda esse lugar para mim, por favor“, “Fulano, guardei um lugar para você aqui na frente, corre logo!“…  Parecia aquela cena do trem abrindo as portas na estação final antes de iniciar uma nova viagem.  Ah, eu queria ter gravado para poder provar que conto a o conto sem aumentar o ponto (pelo menos desta vez).  Principalmente porque não era gente simples e com pouca instrução, movida pela gana da fé, que protagonizou as cenas.  Era gente fina, rica, bem vestida, supostamente educada, nascida em berço de ouro, com jóias nos dedos, nas orelhas e no pescoço, que se comportava de maneira muito pior que muita gente com menos instrução que eu conheço.

Quando eu vi as cenas, não acreditei.  Ou melhor, quis não acreditar.  Se essa é a “alta sociedade” carioca ou brasileira, eu prefiro continuar à margem dela, pobre, marginalizado e suburbano.  É mais autêntico e mais digno.  Fiquei muito impressionado com a gana daquelas pessoas de se apegar à única coisa que tinham de status que pudesse sobrepujar os demais presentes: o lugar na fila e o lugar na plateia.  Uma lição de pequenez e mesquinharia invejável.  Um bando de mal educados!

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2 Comments

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  1. Ignorantes, do tipo tão pobres que só tem dinheiro.

    Acho que até um pouco mais que isso.

  2. Esse provincianismo novo-riquista racha a minha cara de vergonha.

    O pior é que alguns deles tinham toda pinta de serem velho-sempre-riquistas.

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