Carta ao Papa Francisco

Rio de Janeiro, 04 de agosto de 2013

Santidade,

A sua bênção, Francisco de Deus.

Não sei exatamente a razão pela qual alguns privilégios me são concedidos nesta vida.  Sempre me pergunto o que eu tenho de especial que me permite estar em lugares onde eu não poderia, deveria ou teria o direito de estar em condições normais, mas que acasos do destino acabam me permitindo frequentar, na maior parte das vezes, de graça.  Foi por um acaso desse destino, tão sábio e tão esquisito, tão inexplicável e tão afável, que eu me fiz presente, como membro da sociedade civil brasileira, ao Theatro Municipal, há pouco mais de uma semana.  Essa carta, na verdade, era para ter sido escrita na semana passada.  Peço desculpas pelo atraso, já certo de que receberei em troca por esse pedido um largo sorriso, o mesmo que Sua Santidade estampou no rosto em quase todos os momentos em que esteve em terras tupiniquins.

Incomodou-me muito estar ali presente àquele teatro, no meio de tanta gente muito mais rica e chique do que eu, durante aquele encontro.  Não por eles serem ricos ou pertencerem a classes sociais mais abastadas, nada disso.  Incomodou-me o fato de que tanto eles quanto eu não somos dignos representantes da sociedade civil brasileira.  Somos, sim, um extrato amargo e reduzido de uma elite dessa sociedade, minoria, pouco representativa.

Santidade, ao contrário do Valmir, que fez um dos mais belos discursos que eu já ouvi, eu nunca morei em favelas, nunca passei fome, nunca precisei lutar para sobreviver.  Nasci numa família bem estruturada.  Meus pais estudaram bastante e tiveram empregos que me permitiram estudar num dos melhores colégios do país.  Eu nunca usei drogas, não sou órfão, jamais precisei de ajuda.  Tenho um emprego, um carro e bens que muitos brasileiros sequer sonham ter.  Uso transporte público, mas por opção, não por necessidade.  Moro perto do trabalho.  A minha geladeira está repleta de comida, tenho roupas até demais, e quanto mais eu ouvia o Valmir falar, mais eu imaginava que ele sim, não eu, é um legítimo representante da sociedade civil brasileira.  Porque a sociedade é feita da pluralidade de seus membros e, no Brasil, a maioria é pobre, é simples, passa ou já passou por dificuldades ao menos uma vez na vida, tem baixa escolaridade e vive fazendo contas para sobreviver no final do mês.

Se eu tivesse que fazer um discurso para Sua Santidade ali naquele palco (e ignorando o fato de que eu sequer conseguiria chegar à leitura da segunda linha, incapaz de conter a emoção de estar ali na sua presença), a tônica desse discurso seria a ilegítima representatividade que a sociedade brasileira em mim teria.  Concluiria dizendo que Sua Santidade estaria diante das pessoas erradas, a começar por mim, naquele dia.  Seria um estrondo, um alvoroço naquele teatro.  Eu, com a minha capacidade incontrolável de chocar pessoas…  Cortar-me-iam o microfone, provavelmente.  E, depois, ignorariam tudo o que eu falei, como ignoraram, os meios de imprensa, o discurso do Valmir, aquele belíssimo relato de uma vida tão sofrida, tão digna, tão brasileira.

A bênção novamente, Francisco.  Volte sempre!

Leandro.

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2 Comments

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  1. Deus abençoe essa sua percepção 😉

    Amém.

  2. E Deus abençoe o Papa também.

    Claro!

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