No te lo pierdas

O Carioca é mesmo um ser muito prepotente. Eu não fujo à regra. Quando entro num estádio, logo penso: é legal, mas não é igual ao Maracanã. O Maracanã é símbolo de status, é paradigma construtivo, é padrão de comparação, é medida oficial de qualidade de outros estádios. O mesmo acontece com as praias. Se um carioca vai a uma praia fora do Rio de Janeiro, pode até gostar, mas vai logo dizendo: é legal, é bonita, mas não é igual a Ipanema ou Copacabana (até mesmo a Barra e a Prainha). Faz parte do jeito de ser do carioca ter a certeza de que nenhum lugar é tão bonito quanto o que ele tem em casa. E, convenhamos, ele tem toda a razão.

Como bom carioca, em todos os lugares que eu vou, tento fazer analogias geográficas com o Rio de Janeiro para fazer com que a cidade entre melhor na minha cabeça. Na minha metodologia de raciocínio, esse expediente funciona muito bem. Com rapidez eu consigo mapear a cidade mentalmente. E o passeio melhora muito a partir daí. Cidades como Lisboa e São Luís cabem na minha cabeça da mesma maneira que o Rio de Janeiro – e, apesar de alguns deboches que eu possa sofrer pelos incautos que lêem este post, garanto ter condições de comprovar que as minhas teorias são perfeitamente plausíveis. Com Santiago não foi diferente.

Porque Santiago, assim como o Rio de Janeiro, tem um centro e um eixo que se estende na direção oeste (diferentemente do Rio de Janeiro, onde o eixo se estende na direção sul) por bairros que tem mais ou menos o jeitão de Glória, Flamengo, Copacabana, São Conrado, nesta ordem.

Comecemos pela Plaza d’Armas. Em todas as cidades de colonização espanhola a Plaza d’Armas é o centro histórico e cultural. Em algumas cidades, pode-se encontrar uma Plaza d’Armas em cada bairro – é o caso de Lima, no Peru. Em outros lugares, ela mudou de nome, fruto de fatos históricos e readquações do traçado urbano, como é o caso de Buenos Aires, onde ela se fundiu com a Plaza Mayor e passou a se denominar Plaza de Mayo, após a revolução de Maio de 1810. É ali que as famílias se encontram, é ali que as relações se estreitam e é ali que o convívio comunitário é feito. Geralmente, é ali também que se situa o prédio da administração pública local e a sede da paróquia (ou a Catedral) da cidade.

Com Santiago não é diferente. A Plaza d’Armas marca o coração do centro da cidade. É onde velhinhos se encontram para jogar campeonatos de damas, onde mendigos pegam sol e pedem esmolas (não necessariamente nessa ordem de prioridade), onde a polícia passeia tranquilamente trajada nos seus mais vistosos uniformes, onde punguistas fazem plantão, onde vendedores ambulantes perambulam com quinquilharias, onde cães perdidos se amontoam e se reproduzem sem o menor pudor, onde trabalhadores circulam apressados a todo tempo… Ela se situa equidistante do Palácio de la Moneda e do Mercado Central, tem uma estação de metrô e ao seu redor é possível encontrar todas as lojas e serviços disponíveis na cidade. Enfim, é o que mais próximo há do Largo da Carioca.

Seguindo dali na direção oeste até cruzar com o leito do Rio Maipo, anda-se pelo Parque Florestal, com o Cerro Santa Lucia à direita – uma paisagem muito parecida com aquela existente no início do Aterro do Flamengo, naquele ponto em que o Outeiro da Glória beija a planície aterrada. São parques planos, arborizados, planejados, que terminam na união das avenidas Liber Bernardo O’Higgins com a José María Caro, dando origem à Plaza Baquedano.

Não custa lembrar que, em Santiago, diferentemente do Rio de Janeiro, não há mar. Por isso, do outro lado do leito do Rio Maipo, há vida – e vida em grande intensidade. Esta vida, porém, para o turista, se restringe justamente ao ponto em que estamos: a altura da Plaza Baquedano. Cruzando o Rio Maipo neste ponto (um cruzamento para lá de complicado para pedestres e carros, tantas são as vias que se cruzam), vê-se a Universidad de Chile na margem norte do rio e a Calle Pio Nono, que conduz ao bairro boêmio de Bellavista. É como se Laranjeiras, numa escala muito reduzida, ficasse à esquerda, e não à direita, do Aterro do Flamengo.

Bellavista é o bairro da vida noturna na capital chilena.  De dia, praticamente tudo fica fechado, com cara de ressaca, olheiras e remelas nos olhos dos estabelecimentos.  É nítido que, ali, o sol é inimigo da vida; a noite, essa sim, é a grande companheira.  Lá no fundo da Calle Pio Nono duas das grandes atrações turísticas da cidade: o funicular do Cerro San Cristóbal – que em tudo, exceto na altura, se parece com o Corcovado e o Maciço da Tijuca.  Ele é a grande referência geográfica para a cidade.  De qualquer lugar que se esteja, é possível vê-lo e usá-lo como referência.  Lá no alto, ao invés do Cristo Redentor, uma imagem de outro ícone religioso, a Virgem Maria, também de braços abertos, a abençoar a cidade.

A outra atração, que não fica exatamente no final da Pio Nono, mas num quarteirão para a direita, é La Chascona – a mítica casa de Pablo Neruda.  É uma atração quase que obrigatória e Santiago.  A sua localização, naquele bairro, é perfeita, tanto para quem a visita nos dias de hoje, quanto para quem nela viveu, em outros idos.

Voltando à sequência original, desde o centro até El Golf, chega-se, ao fim dos belos parques que se seguem à Plaza Baquedano, ao bairro da Providência – que em tudo se assemelha à nossa Copacabana, senão pela fama e pela praia.  É ali que está a maior parte dos hotéis da cidade, é ali que a maioria dos turistas prefere se hospedar, é ali que o comércio de rua, agitado e variado, fornece opções para uma ótima qualidade de vida…  E quanto mais para o fim do bairro, melhor ele é, assim como Copacabana que, ao menos na minha opinião, é mais agradável para os lados do Arpoador que para os lados do Leme.

No fim da Providência, um shopping separa o bairro de El Golf – bairro que, como o nome diz, possui um enorme clube de golfe e tem ares muito menos conurbados que os da Providência e um jeito de São Conrado que eu lamento não ter explorado com mais vagar.

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One Comment

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  1. É uma ótima descrição geo-comparativa de Santiago!

    Obrigado!

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