Indícios de psicose

E a mania do momento é lavar as mãos.

Há muito tempo, eu conversava sobre distúrbios mentais, psicoses, doenças psiquiátricas e coisas afins com duas então estudantes de medicina, hoje grandes amigas, irmãs.  Em certo momento, por iniciativa minha e um pouco de pilha delas, começamos a fazer um quiz para saber se eu era doente mental ou não.  Apesar da resposta afirmativa ser um tanto óbvia, a constatação médica – que os doutores chamam de diagnóstico – ainda era necessária para iniciar o tratamento.

E eu acabei respondendo negativamente à maioria das indagações que me foram feitas, sobre hábitos típicos de pessoas portadoras de doenças psiquiátricas.  Uma delas, aliás, me chamou muito a atenção:

– Você lava as mãos com frequência?

Bem, eu lavo bastante as mãos, gosto de estar com as mãos limpas.  Não limpas, para ser bem sincero, mas com aquela sensação boa de pele lavada, macia, cheirosa.  Coisa mais irritante é estar com as mãos sujas e não poder pegar em nada sem fazer uma enorme cagada, não poder coçar o rosto sem deixar rastro, não poder apertar a mão de alguém sem comprometer o encontro.  Mãos lavadas são fundamentais.

– Mas com que frequência você lava as mãos?

Sempre após ir ao banheiro e de vez em quando, sempre que sinto que as minhas mãos estão sujas o suficiente para sujarem outras coisas ou pessoas nas quais ela toca.  Por exemplo: não dá para sentar no computador e enfiar os dedos no teclado depois de ter comido batata frita ou outra coisa gordurosa com mas mãos.  Vai cagar o teclado todo – e limpar o teclado é bem mais difícil do que limpar as mãos.  Enfim, gosto de iniciar tarefas com as mãos limpas, seja elas quais forem.

– Isso dá quantas vezes por dia?

Sei lá, umas dez, no máximo.  A não ser que eu vá cuidar de plantas, enfiar a mão na terra, e atender o telefone toda hora.

– Então não…  Você é normal.

Elas foram gentis comigo.  Eu sei.  Amigos são tão incríveis que mentem para não magoar – por mais perigoso que isso possa parecer, como neste caso.  Mentir para um doente psiquiátrico é um grande risco.

E este fim de semana eu me peguei lembrando dessa história cada vez que a Felícia pedia para lavar as mãos.  Não por neurose, ainda, eu espero, mas por farra mesmo, para brincar com a água, sentir sua temperatura, experimentar o sabão escorregadio entre os dedos.  Na sexta-feira, na casa do Márcio, foi muito engraçado vê-la bater na porta do banheiro, pedindo para que eu a abrisse para ela lavar as mãos e, em outro momento, encontrar as duas filhas do Márcio no banheiro ensinando-a a lavar as mãos (eu preferi não entrar num banheiro com três mulheres dentro, pedi que a mulher do Márcio fizesse isso por mim).

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3 Comments

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  1. Papaiê! Avá a mão!

    Assim mesmo!

  2. Passei por esta fase na mesma idade da Felícia, e a Fê ficava preocupada com medo de ser TOC. Né não, fica tranquilo.

    Eu tô tranquilo – quanto a isso, pelo menos.

  3. Não acredito que alguém pense em TOC nessa fase da vida.
    Gente, é o momento das descobertas, inclusive da independência.
    A criança faz algo que ela descobriu e consegue fazê-lo sozinha.
    É pura farra.
    E cá pra nós… brincar com água é bom demais!

    Não acredito que você achou que a gente estava realmente falando de TOC…

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