Armadillo no es, pero …

A minha intenção inicial era escrever este post na esteira da ideia dos transportes, começando pelo transporte aéreo de Santiago, continuando por um passeio virtual pelas ruas de Santiago, depois falar dos transportes terrestres, chegando ao metrô.  Bem, falei do aeroporto, fiz o passeio, e vou falar agora do metrô – depois falo da parte terrestre.  Semana que vem, se tudo der certo.  A vida mais calma, vou recolocar o blog em dia.

Eu costumo fazer uma brincadeira com as pessoas que jamais saíram de suas cidades para fazer turismo no grande circuito mundial (e ainda são muitas as pessoas que se encaixam nessa descrição, desde aqueles que não têm condições sequer de sonhar em fazer isso até aquelas que, tendo muitas condições, preferem continuar ensimesmadas em seus mundos) que as cidades, em geral, fazem a escolha entre ter um metrô eficiente ou ter um metrô bonito.  O metrô do Rio de Janeiro é bonito, elitizado, limpo (basta comparar com os trens cariocas para perceber a diferença), mas cobre uma nesga da cidade e funciona tão bem quanto um vagalume desorientado.  Outros metrôs que eu conheço são bem menos bonitos na aparência mas muito mais eficientes, tanto na abrangência da cobertura quanto na rigidez do cumprimento de horários.

Plano atual do MetroRed
Plano atual do MetroRed

Santiago, seguindo essa filosofia, escolheu ter um metrô feio.  Feio, mas eficiente, e com boa abrangência.  São quatro linhas completas e uma variante, atendendo a cidade de norte a sul, leste a oeste e ainda se estendendo para alguns subúrbios bem distantes.  São linhas equilibradas, que não atendem exclusivamente ao movimento pendular mas também contribuem para facilitar esse tipo de movimentação urbana.  E ainda há planos de outras duas linhas sendo implementados (a linha 6, que vai oxigenar o eixo nordeste sudoeste da cidade, aliviando as baldeações do centro e a linha 3, que vai ligar o norte ao sudeste da cidade, aumentando o número de estações e, consequentemente, a presença da rede de metrô no centro da cidade).

E, a qualquer hora, em qualquer sentido, é difícil entrar num trem e encontrar lugar para se sentar.  Eles estão sempre cheios mas nunca estão completamente lotados.  Parte dessa eficiência se deve à frequência dos trens: muito elevada, mesmo fora de horários de pico.  Em algumas oportunidades, pretendi, com algum receio, pegar o metrô lá pelas 21h e, mesmo tendo perdido um trem assim que cheguei na plataforma, outro chegou em menos de dois minutos.

O trens se parecem muito com os trens da Linha 1 do metrô de Paris: não têm trilhos, mas rodas com pneus de borracha, na vertical e na horizontal, que fazem com que a viagem seja mais macia e menos ruidosa.  Ao notar aquilo, fiquei pensando: deve ser muito vantajoso para uma cidade simplesmente copiar o sistema de metrô de outra grande cidade de mundo que tenha um metrô bem mais desenvolvido.  Sim, porque a cadeia de fornecedores, suas linhas de produção, peças de reposição, consultoria e manutenção, tudo deve ser bem mais fácil de encontrar no mercado, se comparado à reinvenção de bitolas, sistemas, tamanhos…  E deve haver alguma vantagem em adquirir um trem usado por quinze ou vinte anos em uma grande cidade, para durar mais quinze ou vinte anos na sua, por um preço irrisório e com pronta entrega, em comparação com a encomenda caríssima e demorada de trens personalizados para um determinado sistema e que, dali, não terão outro lugar para ir ao fim da vida útil.

Sistema de rodas do metrô é igual ao de Paris
Sistema de rodas do metrô é igual ao de Paris

Se, por um lado, os vagões seguem o padrão parisiense, por outro, a bilhetagem é completamente inédita, ao menos para mim.  O sistema de Santiago, me parece único no mundo.  Primeiro, é preciso entender que há um único bilhete eletrônico – um cartão, na verdade – que permite acesso aos meios de transporte da cidade (incluindo metrôs e ônibus).  Ele se chama BIP ou, como dizem os locais, “tarjeta BIP“.  O nome “BIP” tem um significado, trata-se de uma sigla, mas não lembro, sinceramente, o que é.  E isso pouco vem ao caso.  Para você ser alguém em Santiago, é necessário ter um desses – até porque, já adiantando o assunto do próximo post, não há trocadores nos ônibus e o único meio de utilizá-los é pagando a tarifa com esse cartão.

Para conseguir um, basta ir a qualquer estação de metrô e usar o portunhol para dizer que quer fazer um novo cartão BIP e carregá-lo com a quantidade de pesos chilenos que se deseja (o BIP é um cartão pré-pago) – mas é bem mais fácil, eu reconheço, pedir o meu emprestado e já chegar lá com ele.  Até porque a “confecção” do cartão é paga – custa o equivalente, aproximadamente, a uma passagem – mas não demora nada para fazer.  Não é muito, mas se dá para ser economizado…  Até aí, quem estiver lendo este post deverá pensar, que parece muito com o metrô carioca.  Sim, até aí parece mesmo (exceção à taxa de confecção do cartão que aqui, por enquanto, não é paga).

É na hora de gastar os créditos carregados no cartão que vem a diferença: o metrô de Santiago tem três tarifas diferentes, em razão da hora do dia que o usuário passe na roleta: uma tarifa para os horários mais mortos (cedo demais ou tarde demais), uma tarifa para horários normais e outra tarifa para horários de pico.  Esta última mais cara que a anterior que, por sua vez, também é mais cara que a primeira.  É uma espécie de tentativa de estimular o uso do transporte em horários alternativos misturada com a intenção de permitir que o sistema lucre mais nos horários mais movimentados para subsidiar a boa operação nos horários menos movimentados.  É uma regra que admite lá algumas discussões mas que, pelo visto, se integra bem com o cotidiano da cidade.

E sobre o comportamento das pessoas no metrô, eu também me sinto na obrigação de fazer um comentário.  Aliás, esse comentário não se atém especificamente ao comportamento das pessoas no metrô, mas em qualquer lugar da cidade, em qualquer situação.  O chileno, do mais humilde e trabalhador ao mais rico, em geral, é um sujeito educado.  É óbvio que se trata de uma regra que admite exceção.  Não se pode crer que um povo é igual por inteiro.  Sempre há um mais grosseiro, um mais calado, um mais desatento…  Mas, no geral, as regras de boa convivência em transportes públicos são bem observadas no metrô de Santiago.

Dá-se a preferência para que idosos, gestantes e pessoas com crianças de colo se sentem – eu mesmo, várias vezes, fui vítima desse bom comportamento, recebendo assentos antes ocupados para que eu pudesse sentar com a Felícia no colo.  Espera-se as pessoas desembarcarem para depois embarcar.  Ninguém empurra ninguém para entrar nem sair do trem, mesmo nas estações mais concorridas e em horários de pico…  Enfim, tudo o que se espera de um lugar com um mínimo de civilidade e organização, vê-se no metrô de Santiago.

Até umas faixas verdes, no chão das plataformas, indicando que ali é um lugar próprio para que pessoas com necessidades especiais aguardem o metrô chegar, existem.  E eu, honestamente, não entendi direito a razão de ser dessa faixa.  É um quadrado verde pintado no chão da plataforma, que não fica exatamente no mesmo lugar em todas as estações.  Às vezes eu ficava ali esperando, às vezes não, e em nenhuma delas eu notei diferença no metrô: todos os vagões tinham assentos preferenciais e quase sempre eu recebia  a gentileza de ter um lugar cedido, por causa da Felícia.

Zona de Espera Especial
Zona de Espera Especial

O ponto negativo do metrô de Santiago é a difícil acessibilidade.  Quase todos os acessos são feitos por meio de escadas comuns.  E são muitas.  É raro encontrar escadas rolantes para subir, mais raro ainda encontrá-las para descer.  Rampas também só existem em algumas estações.  Elevadores?  Bem, é possível notar que, em meio a muitas obras de modernização, algumas estações estão recebendo elevadores para torná-las mais acessíveis, mas as obras estavam longe de terminar e, pelo que notei, os elevadores só ligavam o andar intermediário da estação à rua – não chegavam até a plataforma.  Pode ser que eu esteja enganado e eles tenham um plano mirabolante para descer até a plataforma, mas eu não vi isso.

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2 Comments

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  1. O ultimo paragrafo tb remete ao metro de Paris. Acessibilidade pessima.

    Ainda achei Paris melhor que Santiago nesse quesito.

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