Dededo

Só quando eu tenho que lidar com outras crianças, especialmente quando seus pais estão por perto que eu me dou conta da quantidade de metalinguagem envolvida na relação íntima que existe entre pais e filhos. Gestos que dispensam palavras (e que, por isso, desestimulam a fala), piadas caseiras, brincadeiras que só os o pais e os filhos entendem…

Uma das primeiras vezes que eu me dei conta disso foi quando eu ouvi a Fiona chamar a Felícia para colocar o “dededo“. Ouvi aquilo, parei e pensei: ” mas o que raios vem a ser um dededo“. Eu já devia saber, até porque a explicação é óbvia e, por isso mesmo, fácil de entender. “Dededo” é o chinelo (ou sandália, como queiram) de dedo. Depois disso, em várias outras oportunidades eu me deparei com essa questão da linguagem particularizada. Não há coisa mais frustrante do que fazer uma brincadeira com o filho dos outros e a criança não entender. Não há coisa mais incrível do que fazer uma brincadeira boba com o filho dos outros e ele rolar de alegria, pelo simples fato de que se trata de uma interação diferente daquela que ele está habituado a ter com seus pais.

Ontem, por exemplo, numa festinha de aniversário de criança, um dos bebês, com não mais que um ano de idade, estava perto de mim e começou a me encarar. Eu aproximei o dedo do seu rosto e toquei-lhe a ponta do nariz ao tempo que fiz o barulho de uma campainha: blim-blom. Foi a senha – e essa sempre funciona: dali por diante, eu só precisava estender o dedo na direção da criança que ela própria já levava o rosto na direção certa até seu nariz tocar o meu dedo, esperando o barulho da campainha, que eu, obviamente, repetia tantas vezes quantos fossem os toques do nariz dela no meu dedo.

Dededo da Margarida
Dededo da Margarida

Com o dededo não é diferente.  Porque começou com o dededo e hoje a brincadeira já tem outro nome: Margarida.

Felícia é louca pela Margarida.  A Minnie já ficou para trás, a Margarida agora é a sua favorita.  Ela tem um body da Margarida, um sapato da Margarida e a gente aproveitou o momento da troca do tamanho do dededo para comprar um da Minnie e outro da Margarida.  Nem preciso dizer que o da Minnie está encostado – só o da Margarida é usado, praticamente.

Tanto que, hoje em dia, basta perguntar a ela: “vamos colocar a Margarida?”  Ela já sabe do que se trata.  Uma pergunta que qualquer outra pessoa que não nós três – e as avós – não saberia responder, por não saber do que se trata, para nós é repleta de significado.  Piada caseira, metalinguagem particularizada, seja lá o que for.  Assim a gente se entende, assim a gente convive.  E muito bem, por sinal.

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4 Comments

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  1. Aí está a magia da 1ª infância!

    Concordo.

  2. Que barato essas preferências dela. E essa interação é tudo de bom mesmo 😉

    Tem várias outras. Se eu tivesse tempo para contar todas…

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