Sobre biografias

Pouco escrevo sobre livros aqui no blog.  De acordo com a indexação, este é o nono post sobre o tema.  Convenhamos, não é nada perto do mar de mais de 1.800 posts publicados até agora.  Semana passada, porém, dois fatos me inspiraram a escrever sobre o assunto.  O primeiro deles foi o término da leitura da biografia de Noel Rosa escrita por João Máximo e Carlos Didier.  O segundo, as recentes publicações do colunista Ancelmo Góis sobre a evolução dos debates acerca da publicação de biografias – especialmente as não autorizadas – no Brasil.

Capa do Livro
Capa do Livro

A começar pelo livro de Máximo e Didier.  Que livro fantástico!  Na época em que eu comprei e li a biografia de Rubem Braga, descobri que havia também um trabalho que se dizia muito completo sobre a vida de Noel Rosa.  Fiz uma solicitação despretenciosa a uma pessoa muito querida que conhece o João Máximo, coautor da tal biografia: será que ele poderia me emprestar o livro, caso o tivesse, ou pretendia ele reeditá-lo?  O livro, editado e publicado em 1990, estava esgotado.  Nos sebos, custava por volta de quatrocentos reais – usado!  Devia ser, mesmo, muito bom.

Sabe aqueles livros tão bons, mas tão bons, que, ao perceber que o final se aproxima, você começa a ler menos e menos, só para ele demorar mais a terminar?  Pois é.  Esse livro é assim.

Capa do livro "As Barbas do Imperador"
Capa do livro “As Barbas do Imperador”

Sou fã de biografias.  Herdei o gosto do meu avô.  Mas não leio qualquer biografia, só de pessoas que me interessam.  Já li várias – embora não tantas quanto eu gostaria: D. Pedro I, D. Pedro II, Castro Alves, Raul Seixas, Marquês de Pombal, Franklin Roosevelt, Tim Maia, Winston Churchill, Rubem Braga, Getúlio Vargas, Domingos da Guia…  Umas boas, outras ruins, nenhuma excelente.  A mais próxima do ideal havia sido a de D. Pedro II, por Lilia Moritz Schwarcz, intitulada “As Barbas do Imperador”, mas que peca pelo fato de ter sido escrito por uma historiadora, não por uma escritora.  Nenhuma excelente até esta.

Que trabalho incrível de pesquisa os autores fizeram!  Quanto material eles conseguiram angariar!  Quantas pessoas que conviveram com Noel Rosa eles conseguiram entrevistar – na época em que foi escrito, muitos ainda estavam vivos, hoje não mais!  Com uma particularidade: eu lembro de, muito moleque, ter perguntado a um dos contemporâneos de Noel sobre Noel.  Era D. Lourenço de Almeida Prado, reitor do Colégio São Bento, onde estudei a vida inteira.  Certa vez perguntei-lhe se era mesmo veradade a lenda que contavam sobre ele ter morado na casa de Noel Rosa.  Para aqueles que não sabem, D. Lourenço, monge beneditino e reitor do colégio por uns cinquenta anos, era natural de Taubaté.  Viera para o Rio muito menino, recomendado pelos seus pais aos pais de Noel Rosa – também aluno do colégio – para aqui estudar, coisa comum na época.  E ele me confirmou a história.  Não era, então, apenas uma lenda.  Ato contínuo, perguntei-lhe sobre Noel.  Como ele era?  O que ele se lembrava?  Não sei exatamente a cara que eu fiz ao formular tais perguntas, mas é vívida em mim, ainda hoje, a lembrança de ter os olhos brilhando de ansiedade e curiosidade, quase veneração por estar diante de alguém que um dia viu, com seus próprios olhos, o Noel em pessoa.  A resposta foi evasiva: ele não lembrava muito de Noel, tanto por ser muito menino naquela época, quanto pelo fato de que ele praticamente não via Noel.  Este praticamente não morava em casa e, quando aparecia, era para dormir de dia, hábito muito comum aos boêmios, enquanto D. Lourenço estava estudando.  Frustrante mas saboroso, mesmo assim.

Uma biografia completíssima: fala tanto da vida do biografado quanto da história de cada uma das suas obras, explicando-lhes as origens, os porquês, entremeando curiosidades e repercussões.  Fiquei imaginando uma reedição em audiobook, entremeando às histórias as músicas – que já estão, segundo me consta, em domínio público.  Seria um espetáculo, um sucesso atrás do outro!  Um livro definitivamente recomendável para cariocas, fãs de samba, fãs de música brasileira e amantes da boa leitura.

Mas por que ele não foi reeditado?  Custando tanto no mercado de revenda, seria altamente rentável para a editora que o republicasse, naturalmente.  Explica isso o segundo fato que me inspirou a escrever sobre o assunto: as recentes publicações do colunista Ancelmo Góis sobre a evolução dos debates acerca da publicação de biografias – especialmente as não autorizadas – no Brasil.

Para quem não está acompanhando o bafafá, eu explico resumidamente: de um lado, editoras e autores querem escrever biografias; autores querem contribuir com a história (ou não apenas isso) e editoras querem ganhar dinheiro com isso (ou não apenas isso).  Do outro lado, pessoas públicas biografadas ou biografáveis querem proteger sua intimidade (ou não apenas isso) e sua boa imagem perante o público que as consome.  O bafafá está no Supremo Tribunal Federal e, logicamente, não tem data para terminar.  Estes, liderados por Roberto Carlos e Paula Lavigne, querem que biografias só possam ser publicadas com autorização expressa e prévia dos biografados, reservando a eles parcela do dinheiro ganho com a vendagem dos livros.  Aqueles, liderados pela Associação Nacional dos Editores de Livro, querem liberdade para escrever e editar biografias sem restrições dos biografados.  Alegam que a autorização prévia é censura e restrição à liberdade de expressão.

Há algum tempo colunistas têm dedicado algumas linhas para falar do assunto em jornais de grande circulação, como a Folha de São Paulo e o Globo.  Entrevistas com Ruy Castro (que também teve entreveros com Roberto Carlos em priscas eras), depoimentos de Djavan e do próprio João Máximo, além de notas publicadas aqui, ali e acolá sobre movimentos de bastidores, apimentam o já acalorado debate.  Este último link, por exemplo, noticia que a biografia de Noel Rosa já está valendo setecentos reais nos sebos, por conta do bafafá – inflação superior à dos imóveis no Rio de Janeiro.

Eu não sei onde esse bafafá vai terminar.  As últimas coisas que eu vi serem resolvidas nas barras judiciais com tantos holofotes resultaram em decisões meio tortas, mais atendendo a interesses políticos que públicos.  Não me espantarei se, com este caso, assim também o for.  Até porque os próprios políticos e juízes, hoje tão em voga, podem se ver na posição de biografáveis muito mais que na de biógrafos.  Isso não é muito difícil, convenhamos.  Torço apenas para que eu continue a ter a possibilidade de sorver conhecimento por meio de pontos de vista distintos, selecionando o que me parece mais razoável, melhor fundamentado, conveniente, crível.  Cada um que, durante o decorrer da sua vida, pense nas suas atitudes à luz dos olhos de um potencial biógrafo – e paute seu comportamento pelos valores que deseja ser relatado, não por aqueles que deseja relatar.  Podres, todos temos.

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3 Comments

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  1. Em um país dominado pelo politicamente correto, pelas frases feitas e pela honra monetizada, não estou muito otimista sobre os rumos desta discussão sobre bibliografias.

    Os bibliografáveis vencerão. Isso é certo. Infelizmente.

  2. Interessante ler este post justo na semana em que encomendei a minha primeira biografia, a de Charles De Gaulle Confesso que nunca me interessei muito pelo gênero, mas veremos como será minha experiência…

    Espero que goste. Mas se não gostar também não tem problema.

  3. Canção dedicada aos coronéis das biografias: http://bit.ly/1cuWTYu

    Musiquinha meia-boca.

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