Fazendo arte

Várias coisas na minha vida adquiriram um novo sentido depois da Felícia.  Não leiam, por favor, esta frase com olhos sentimentalóides próprios de hormônios femininos.  Leiam-na, sim, com a vivacidade e o sarcasmo típicos deste blog e de seu autor.  A forma como ela age, as coisas que ela faz, são incrivelmente engraçadas e dignas de piadas – daquelas que eu e Fiona tão bem sabemos fazer, ela ainda mais que mim.

Ontem fomos, em família, passear pelo centro da cidade.  Saímos de casa sem destino certo e investimos no que nos parecia mais seguro: o Centro Cultural Banco do Brasil.  Seguro não por questões de segurança pública.  Seguro porque é um lugar onde sempre há coisas legais para se ver e fazer.  Tiro certeiro, só para variar.

CCBB
Bolas cor de rosa

Vocês tinham que ver a cara dela quando entrou no átrio e viu aquelas enormes bolas cor de rosa flutuando do chão ao teto.  Tentei brincar com o fato de a porta de vidro abrir automaticamente, mas ela nem ligou, fixada que estava naqueles enormes objetos coloridos.  Uma placa no canto, discreta, pedia não tocar nas bolas.  Quem resistiria?  Sei que eu deveria ter feito algo para evitar.  Não pude, porém.  Ela se aproximou de uma das bolas e tocou-lhe com a ponta do dedo, numa delicadeza indescritível.  Ambos nos olhamos com a satisfação do sucesso de uma baita travessura no olhar.  Travessuras bem diferentes, com nível de perdoabilidade bem diferentes.

Em outros tempos, eu passaria por aquelas bolas achando aquilo ridículo.  No máximo, consideraria um eficiente enfeite para ambientes festivos.  Nunca arte.  No entanto, eu estava ali, interagindo de alguma forma com aquela forma de arte e, por que não, fazendo arte.

Depois, a descoberta de uma brincadeira.  Ainda no térreo, ali do lado, uma “fábrica de estampas” permitia ao público fazer arte, carimbando diferentes formas sobre um papel contínuo que era desenrolado pela monitora.  Como crianças gostam de se sujar…  Sujou as mãos, a blusa, o rosto.  E, enquanto ela carimbava o papel, cada vez mais forte, para fazer mais barulho, eu repetia: “isso, filha, vai treinando para ser funcionária pública”.

E, em uma sala repleta de quadros que, a rigor, não representam nada que não tinta jogada sobre a tela branca, ordenada ou aleatoriamente, tornei divertida a brincadeira ácida.  Junto a um grupo de pessoas que analisava um dos quadros de maneira elevadamente intelectual, perguntei: “filha, o que é isso?”  Ao que ela respondeu: “Aôis”.  As pessoas olharam para ela com cara de raiva.  “Que insulto!”, deve ter pensado um deles; “É uma criança!”, deve ter sentenciado outro, com desdém; “É filha de um idiota”, um terceiro vaticinou provavelmente.  Este, o mais certo de todos, senão o único.

Não contente, dirigi-me ao quadro ao lado, em tom de voz suficiente para que todos eles ouvissem também: “E este?”  “Feijão.”  “Muito bem”…  “E aquele ali?”  “Sopa.”  “Sopa?  De que?” “De uva!”  “Hum…  Sopa de uva, que delícia!”  Enquanto eu ria daqueles quadros ridículos por dentro, fazia ar de aprendiz de intelectual, diante daquelas sábias lições que Felícia me ensinava.  No fim, já em outra sala, para todos os esquisitos quadros que eu a apresentava, ela simplesmente respondia: “É o Dindo!”.  A brincadeira havia chegado ao fim.  Saborosa brincadeira, fazer deboche daquele tipo de arte.

A última sala da exposição era uma experiência interativa.  Em uma sala totalmente branca, colar adesivos redondos coloridos.  Uma cartela de adesivo para cada um que entrasse na sala – o que significa que a Felícia ganhou três cartelas para colar onde quisesse.  Um dos adesivos, colado na minha bochecha, eu só fui tirar depois do almoço, muitos minutos (e algumas situações ridículas) depois.  A Fiona chegou em casa com um adesivo colado na parte de trás da calça jeans.  Há adesivos colados no tênis da Felícia ainda hoje, mais de 24h depois da farra.

E eu não teria dado a menor bola para nada daquilo não fosse a Felícia.

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3 Comments

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  1. É, crianças mudam nossa perspectiva de uma forma inimaginável mesmo.

    Sopa de uva, realmente, é inimaginável.

  2. Que tal a gente fazer uma sopa de uva pra ela???

    Ideia meio doida essa, hein?

  3. A primeira frase é tão somente dita por uma pai sentimentalóide e babão.

    Este sou eu, sendo zoado publicamente na internet.

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