Missareta

Outra coisa que mudou muito na minha vida foi o motivo que me leva a determinados lugares e encontros sociais.  Antes, festas de crianças eram uma simples rotina social a ser cumprida: comparecer, rever amigos, comer doces e nada mais.  Hoje, festas infantis são eventos memoráveis, curtidos em elevado grau de intensidade.  E este é apenas um dos muitos exemplos que esclarecem esse ponto de vista.

Outra mudança foi a forma como eu realizo o exercício dominical da prática religiosa: a missa.  Que, na verdade, deixou de ser, quase que definitivamente, dominical.  Passou a acontecer aos sábados, quando é realizada a missa das crianças na paróquia.  Não tenho vergonha nenhuma de dizer que o meu prazer, na missa, não é mais a prática da devoção espiritual pessoal, mas a simples tentativa de tentar incutir na Felícia o hábito à prática religiosa.

O que inclui, por exemplo, tornar a missa um passeio legal, do ponto de vista dela.  Como?  De inúmeras maneiras.  A primeira delas é chegar cedo e permitir que ela interaja com os objetos presentes dentro da igreja e com as demais crianças.  A segunda é levar mais alguém para curtir o passeio com ela – a parte fácil é que a bisavó está sempre disposta a participar.  A terceira é comprar, digo, recompensar: um pão de queijo ao final da missa é um baita incentivo.  A quarta…  Bem, a quarta é tornar a missa um megaevento, com preparação, realização e pós-realização.

Criar nela a expectativa do evento é fundamental.  A propaganda, dizem, é a alma do negócio.  Fazer propaganda positiva do evento, animando-se e fazendo animar, faz parte dessa tarefa.  Escolher que missa ir também é importante.  Se eu levá-la a uma missa solene, com cantos gregorianos, etc., ela vai desistir na primeira.  Esse método de prática religiosa é muito importante e válido, mas ela pode descobrir depois, quando já tiver raízes bem fincadas.  Hoje, ela precisa de algo que a atraia, atendendo ao conceito que ela tem para diversão.  Missas para crianças são ideais, portanto.  Muita música, muita dança…  Muita dança.  Na verdade, coreografias inteiras para as músicas.  Uma típica micareta ou, como eu gosto de achincalhar (no bom sentido, claro), uma missareta.

Funciona.  Ela adora, se interessa e aprende.  E como aprende.  Este sábado, só de ouvir o ensaio pré-missa de uma música, ela já saiu repetindo o refrão e a coreografia.  Que velocidade!  Eu não esperava.

Eu só me dei conta de tudo isso há duas semanas quando, na saída da igreja, logo após o término da missa, uma senhora se aproximou de mim e disse: “Não consigo mais prestar atenção no padre.  Fico só olhando para ela.  É uma gracinha…

E o pior é que, às vezes, eu tenho a nítida impressão de que a Felícia sabe que é o centro das atenções.  Como explicar, por exemplo, que dentre várias pessoas dentro da igreja ela saiba exatamente quem é a Tia Amanda ou o Tio Léo?  Tudo bem, o Tio Léo é fácil, porque ele está sempre tocando violão.  Mas a Tia Amanda?  Ela é só mais uma das apertadoras de bochechas…  Ou então o fato de ela saber exatamente o que fazer no ofertório: ir até o altar, jogar a nota dentro da urna e retornar ao lugar dando a volta na igreja pelo corredor lateral?  Até a fila da comunhão ela já encarou – e, óbvio, o padre negou-lhe ministrar o sacramento.  Ela ficou um pouco frustrada, mas não desistiu.  Continua tentando.  Um dia ela chega lá.  E, se chegar, meu objetivo estará atingido.

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6 Comments

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  1. Perdoe a minha ignorância litúrgica, mas por que o padre não quis ministrar o sacramento à Felícia? É porque ela ainda não fez primeira comunhão?

    Exatamente.

    • Porque ela não se confessa, Eduardo…ela ainda tem inocência para “comungar” com Cristo sem precisar confessar os pecados, como nós temos, hehehe.

      A minha resposta ao comentário dele é mais precisa. Até porque, em tese, ela não tem que se confessar porque crianças, também em tese, não cometem pecados – então não têm que se confessar. A ausência de confissão, portanto, não é a causa impeditiva da negativa do padre em ministrar-lhe o sacramento.

  2. Rsrsrsrs…

    Você ainda não viu…

  3. Todo relato envolvendo a Felícia vem acompanhado de um sorriso dos leitores, rs.

    Deixe-a entrar na adolescência…

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