Quando dois gigantes se encontram

Poucas coisas podem ser mais nocivas para o mundo do que um duelo de titãs.  Imaginem se dois irmãos dentre os filhos de Urano e Gaia resolvessem brigar entre si, numa disputa feroz por algo que apenas lhes interessassem, pouco ou nada se importando com os mortais?…  Pobres de nós.  Afortunados para sempre seriam aqueles que sobrevivessem a isto sem nada sofrer.

Na busologia também é assim.  Poucas coisas podem ser mais nocivas ao sistema de transporte público rodoviário do que um duelo de titãs – digo, uma disputa entre dois ônibus de uma mesma linha.

Na teoria, ônibus de uma mesma linha não devem se encontrar senão na garagem ou no ponto final.  Em ambos os casos, estão fora de serviço e, preferencialmente, estacionados.  Nesse estado de inércia, eles não oferecem qualquer risco.  O despachante, no sábio exercício de seu ofício, faz o que pode para contribuir para o perfeito funcionamento do sistema de transporte público rodoviário de passageiros, autorizando os ônibus a partir para a guerra, digo, batalha, digo, viagem, um a um, seguindo um sequenciamento.  Esse sequenciamento respeita um intervalo de tempo que deve haver entre um ônibus e outro, tempo este que é a síntese da eficiência do sistema como um todo, gerando a permanente disponibilidade do serviço para o público, de modo que a cada certo período de tempo, um ônibus de uma determinada linha passe por um ponto ao longo do itinerário.

Na prática, porém, a teoria é outra.  E isso se deve, em síntese, à inegável vigência do princípio da relatividade.  Isso equivale a dizer que até a distância entre os ônibus é relativa, a depender exclusivamente da vontade do motorista.

Porque motorista que é piloto, e não apenas motorista, sabe que o objetivo, ao sentar no cockpit, ou melhor, no seu assento, é chegar no ponto final o mais rápido possível.  Dane-se quem pensar o contrário.  Regularidade, pontualidade, suavidade, educação no trânsito e constância são coisas de mulherzinha.  O que importa, mesmo, é ser o mais rápido, chegar na frente, terminar logo a viagem.  Afinal de contas, passageiro feliz é passageiro que chega logo ao seu destino.  Na cabeça do motorista, ele é o único ser no mundo capaz de inverter o resultado da equação nociva do trânsito, do engarrafamento, da morosidade do transporte público.  E não lhe faltam capacidade, reflexos e ousadia.

Ainda que isso custe jogar a teoria por água abaixo.  Aliás, melhor reformular essa frase.  O correto é dizer: “principalmente se isso custar jogar a teoria por água abaixo“.  O primeiro passo para se chegar logo ao destino é acelerar.  O segundo é não frear.  O terceiro é ultrapassar.  Ultrapassar todos os que estiverem à sua frente, no seu caminho, reservando um especial prazer para a ultrapassagem de outro ônibus da mesma linha.  É neste momento que o motorista pode realmente medir suas forças universalmente incríveis – desafiando o companheiro de equipe, digo, o colega e trabalho, para um “pega” urbano.

E, nesse pega, não há cordialidade nem regras.  Vale tudo para sobrepujar o concorrente.  O ônibus que partiu depois do ponto final é o desafiante; o que partiu primeiro é o desafiado.  Desafiado que já inicia a disputa com a desvantagem psicológica de ter sido alcançado pelo desafiante, e que agora tem que mostrar que é capaz de manter-se no comando das ações.  E, quanto mais próximo do início da viagem isso acontece, maior o grau de humilhação com que o desafiado entra na disputa.  Para o desafiante, que persegue o desafiado como um predador carnívoro, a brincadeira está apenas começando.

Por não ter regras, e é importante ressaltar o óbvio, essa disputa dá margem a tudo o que se possa imaginar de artimanhas: desvio de itinerário para pegar atalhos, deixar passageiros a pé no ponto, não permitir o desembarque de passageiros dentro do ônibus (parar para isso é uma baita perda de tempo, que pode comprometer seriamente o sucesso na disputa), avançar sinal, andar na contramão, usar outros carros como retardatários a atrapalhar o desempenho do adversário…  Vale até parar do lado do outro ônibus, no sinal, e pedir para o trocador provocar o motorista do outro ônibus, numa autêntica guerra psicológica.  Sem falar na beleza das freadas, da força centrífuga nas curvas e nas arrancadas espetaculares, intercaladas pelos solavancos das marchas engatadas com a força de quem crê que, com isso, auxilia o ônibus a andar ainda mais depressa.

Uma das estratégias mais comuns é jogar com os passageiros dos pontos.  O desafiado, constatando a aproximação do desafiante, começa a ignorar os sinais dos passageiros que querem embarcar no ônibus.  Esses motoristas, cinicamente, passam reto pelo ponto, fazendo sinal com o polegar, apontando para trás.  Querem, na verdade, indicar bondosamente que, no ônibus que vem logo atrás, os passageiros terão mais chances de viajar sentados, confortavelmente.  Outros motoristas, não tão piedosos, simplesmente ignoram os passageiros que acenam, solicitando a parada para embarque.  Ao desafiado resta optar por manifestar a sua magnanimidade, parando para esses passageiros – o que não é mau, já que ele ganha uma desculpa para eventual derrota e um motivo a mais para zoar o desafiado, em caso de vitória – ou destinar-lhes o mesmo tratamento que o desafiado lhes emprestou: a mais rigorosa e irrestrita ignorância.

O passageiro começa, então, o seu calvário.  Não consegue embarcar.  Se embarca, é chacoalhado constantemente.  Quando quer desembarcar, não basta fazer sinal: é preciso rezar para conseguir.  No entanto, não é raro encontrar no passageiro o principal elemento motivador do motorista, incentivando-o a perseverar na disputa, encorajando-o na busca de soluções sempre mais arrojadas, e comemorando uma ultrapassagem como um gol em final de campeonato.  Tudo em atenção ao princípio da familiariedade.

E o pior de tudo: apesar de ser uma disputa para ver quem chega primeiro no ponto final, a prática demonstra que dois ônibus em disputa não conseguem ser mais rápidos que um sozinho.  Tal como na Fórmula 1, dois carros em disputa perdem tempo, ao invés de ganhar.  Assim, a disputa pela viagem mais rápida acaba tornando ambas as viagens mais lentas – mesmo sem parar no ponto.  Um fenômeno que merece estudo mais detido, certamente, e que não cabe aqui explicar.  Isso é matéria para outra lição.

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4 Comments

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  1. A carona diária já está chegando.

    A desvantagem da carona é que eu não penso nessas coisas.

  2. Essa brilhante exposição teórica pode ser examinada na prática com precisão no corredor BRS de Copacabana, especialmente no trecho que vai da Praça do Lido ao Shopping Rio Sul.

    Deve ser uma maravilha de cenário, um precioso relicário…

  3. Ei, o título está errado…Está “quando dois gigantes DE encontram” 😉

    Ih, é mesmo? Vou corrigir.

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