O pai errado

Era uma festa na casa de uma amiga da Fiona.  A aniversariante, a própria amiga da Fiona.  Ela e seu marido já estavam naquele clima de quem ambiciona engravidar.  E, a cada passagem de uma criança por perto, qualquer dos dois fazia festa com os pequenos.  Felícia não ficou de fora.  Foi convidada a entrar na roda várias vezes mas, arredia, relutava.  Por duas vezes eles já haviam tentado pegá-la no colo, sem sucesso.  Depois de muito tempo aceitando o colo de qualquer um, de uns tempos para cá ela demora um bocado até sentir confiança e largar o colo de alguém conhecido.

Num momento de pura distração, o marido da amiga da Fiona acabou aproveitando para pegá-la no colo, pelas costas, sem ela perceber.  Fez como que uma cadeirinha com o braço.  Eu notei que ela não estranhou e comentei com a Fiona:

– Olha lá!

– Ela aceitou ficar no colo dele?

– Não.  Ela tá achando que tá no meu colo.  Não se ligou ainda que está no colo do pai errado.

Não deu outra.  Trinta segundos depois, e várias pessoas avisadas, ela se deu conta do fato da maneira mais engraçada possível.  Ao olhar para o lado, me viu a uns dois metros de distância.  A Fiona ao meu lado.  E começou a contar mentalmente (era possível ler cada palavra que se passava pela cabeça dela enquanto ela juntava as peças do quebra-cabeça): “se meu pai está ali e a minha mãe está ali, então quem é que está me segurando?

A última frase veio acompanhada de um olhar para cima, que se avizinhou de um sorriso simpático e largo de quem a segurava no colo.  Não houve jeito, no entanto: ela fez cara de choro e pediu, pelo amor de Deus, para tirá-la dali.  Acudi, rindo até não poder mais.

O tempo passou e, mais uma vez, eu a vi errar de pai.  Desta vez, foi na missa.  Ela deu um passeio pela igreja, como de hábito.  Voltando ao local de origem, andando de costas para não perder nada do que estava acontecendo ao redor, apoiou-se na perna da senhora que estava sentada no banco da frente.  E ali ficou, por um minuto ou dois, não mais que isso.  Até perceber, ao olhar para o lado, que aquela perna não era a minha.  Desta vez não chorou, até porque não precisava nada para se desvencilhar da situação.  Mas ficou envergonhadíssima com o erro.  E eu, mais uma vez, ri de montão.

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One Comment

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  1. Adorei a história! Ri muito só de imaginar a cara dela construindo o raciocínio e concluindo que estava no colo errado.

    Foi realmente muito engraçado.

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