Carta ao José Genoíno

Rio de Janeiro, 17 de novembro de 2013.

Caro José Genoíno,

Boa noite!  Espero que esteja bem, e que, em breve, o sol volte a nascer quadrado para o senhor.  Sim: senhor.  Porque agora, preso, o senhor não é mais digno de receber o tratamento de V. Exa., reservado aos dignitários (que, como o próprio nome já diz, aqueles que são dignos de alguma coisa, que são merecedores de alguma honraria, coisa e tal) eleitos pelo povo para representá-lo.  Sinto muito dizer mas, por mais que o senhor não concorde, hoje em dia eu afirmo, sem sombra de dúvidas, que o Deputado Marco Feliciano representa muito mais o povo brasileiro do que o senhor.

E, se eu ainda cometo o arroubo de chamá-lo de “senhor”, é porque minha mãe me deu a educação que o senhor não tem.  Fosse dignamente educado, teria dito “não” ao esquema, à tramoia, à safadeza, à cafajestagem.  Não apenas participou dela, também comandou-a até certo ponto, junto com os amigos.  E não venha me dizer que o senhor é inocente, que vai provar sua inocência…  Dizer isso é o mesmo que tentar virar o jogo após o apito final do árbitro no último jogo da final do campeonato.  Não dá mais, o processo acabou.

Um processo, aliás, que foi conduzido por onze pessoas diferentes.  Todos os onze deram seus pitacos, tiraram suas conclusões.  Podem estar errados?  Podem sim.  Mas eles seguiram as regras que o senhor ajudou a escrever há vinte e cinco anos.  Regras essas que o senhor considerava bem mais justas que as do jogo anterior.  Regras que permitiram que o senhor dissesse o que quis, fossem argumentos bons ou não; regras que permitiram que o senhor tomasse posse do cargo de deputado federal, mesmo depois da primeira condenação, regras que permitiram que o senhor apresentasse recursos de utilidade duvidosa, regras que permitiram a análise profunda e imparcial de todos os seus argumentos e de todos as provas apresentadas.  Que ironia do destino, o senhor hoje ser vítima dessas regras…  Foram as regras que se tornaram más?  Ou foi o senhor que… se tornou mau???

Regras, aliás, que permitiram que, dessas onze, nove pessoas fossem indicadas para estar ali pelo seu partido – incluindo nessa seleta lista o relator do processo – se não me falha a memória.  Nove “amigos”.  Nove “confiáveis”.  Ou, na sua visão, nove “traídores”.

Na boa, Genoíno, não sei se o senhor tem noção do que estou tentando explicar, mas o senhor dizer que se considera um preso político num governo chefiado pelo seu partido após um julgamento que seguiu as regras do jogo supostamente democrático que o senhor ajudou a construir significa que o senhor considera o seu partido o tutor de uma ditadura.  É isso mesmo que o senhor quer dizer?  O senhor virou a casaca só porque agora está dormindo ao lado daqueles a quem você dizia representar?

Sinto muito, essa não cola.  Prefiro pagar impostos para sustentar o senhor na prisão do que no Congresso Nacional.  E, creio, com alegria, que não sou o único.  Aliás, se eu morasse em Brasília, tiraria um tempinho para lhe fazer uma visita – só para azucriná-lo.

Espero o senhor aqui fora, e espero que eu espere bastante,

Leandro.

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One Comment

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  1. E, na falta de defesa melhor, ele apelou para a “perseguição política”.

    Perseguição política do seu próprio partido?

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