A praça é do povo!

Eu fiquei muito surpreso quando perguntei a uma amiga – belorizontina de nascimento e residência – o que havia de legal para se fazer em Belo Horizonte.  Na verdade, não fiquei surpreso com a minha pergunta, nem mesmo com a resposta.  O que me surpreendeu, mesmo, foi a naturalidade com que a resposta foi dada: “uai, vai para a praça!  Tem um tanto de pracinha legal para brincar, sô!”  A praça…

A praça é uma das três instituições presentes em todo e qualquer canto onde haja civilização no país.  Aos curiosos, informo que as outras duas insittuições são o centro religioso e o campo de futebol.  Pode faltar banco, pode faltar poder público, pode faltar escola, água, esgoto e tudo o que há de mais indispensável ao ser humano, mas não podem faltar a praça, o campo de futebol e o centro religioso.  Como, então, eu não havia pensado nela antes?

Depois de muito tempo matutando, cheguei à conclusão de que a praça nunca esteve na minha lista de prioridades porque praças simplesmente não fazem parte da minha vida, enquanto carioca.  Explico: seja porque elas se tornaram abrigos de mendigos, seja porque elas são, em geral, malcuidadas, seja porque elas passaram a ser utilizadas apenas como sanitários caninos, seja porque há muito mais o que fazer (ir à praia, por exemplo) numa cidade como o Rio de Janeiro, o carioca perdeu esse hábito de ir à praça.  Há muito tempo, no Rio, a praça deixou de ser o centro da vida social.  O mesmo não ocorre em BH.

Eu fiquei ainda mais pasmo quando, num domingo de sol, eu cheguei numa praça e a vi qualhada de gente.  Muita gente mesmo.  Parecia um acampamento.  Gente fazendo piquenique, gente praticando esporte, gente passeando com o cachorro, gente brincando com o bebê, gente simplesmente vendo a vida passar, gente de todas as idades…  Na praça.  E aí eu percebi que, lá no interior, a praça ainda é aquilo que ela sempre foi.  E foi só aí que eu passei a entender que a praça, para o belorizontino, é sim uma opção viável de lazer e entretenimento.  Quebrado o meu preconceito, passei a tentar – sem muito sucesso – ir a algumas praças da cidade.  O resultado foi essa listinha:

1. Praça Bagatele: a pracinha situada em frente ao Aeroporto Carlos Drumond de Andrade (vulgarmente conhecido pela alcunha de Aeroporto da Pampulha) era a mais próxima da minha casa e, por isso, a que eu mais frequentava.  Ela, porém, embora mais ou menos bonitinha, era deserta.  Só havia mesmo aquela monteira de taxistas ao redor de seus carros, desfilados pela praça, e um trânsito constante de carros e gente chegando e saindo da cidade pelo aeroporto.  Era muito mais legal passear pelo aeroporto do que ficar ali na praça.

 Praça Santo Antônio
Praça de Santo Antônio da Pampulha

2. Praça de Santo Antônio da Pampulha: outra praça perto da minha casa, também muito frequentada, especialmente aos domingos, antes e depois da missa (a igreja homônima fica nesta praça).  É um espaço para lá de interessante, em formato triangular, com a igreja ao fundo.  Um ambiente realmente interessante, não fosse pela enorme quantidade de mendigos e cracudos que habitam os arredores, ora dormindo, ora achacando os transeuntes.  Só mesmo nas horas antes e depois das missas, quando ela enchia, é que dava para passar por ali.

Praça do Papa
Praça do Papa

3. Praça do Papa: uma das grandes praças de Belo Horizonte, ela fica lá numa parte alta da cidade, próxima ao Parque Mangabeiras.  É onde termina, na prática, a principal avenida da cidade (a Av. Afonso Pena), depois de subir uma pirambeira sem fim.  Ela é linda, ampla, tem vista livre para o pôr do sol no fundo da paisagem da cidade e seu desnível, acompanhando a encosta da Serra do Curral, faz com que ela pareça um teatro.  Seu nome oficial é Praça Governador Israel Pinheiro, mas ganhou o apelido de Praça do Papa depois da visita de João Paulo II lá nos idos dos anos 80 (a primeira visita do Papa ao Brasil).  E o povo vai mesmo para lá nos dias de ócio: tem gente correndo, brincando com o cachorro, andando de skate, fazendo piquenique, dormindo, praticando outros esportes, exibindo seus carangos possantes…  Enfim, tudo o que é necessário para uma vida social bem vivida, numa cidade do interior.

4. Praça de São Francisco de Assis: famosa, mesmo, é a igreja de São Francisco de Assis.  A praça parece um acidente atrás dela, a separar as duas mãos de direção da via que contorna a Lagoa da Pampulha naquele trecho – a Avenida Otacílio Negrão de Lima.  A impressão que eu tive foi a de que turistas não se misturam com locais naquele lugar.  Turistas ficam do lado da calçada onde está a igreja.  Os locais ficam do lado de lá, na praça, que se avizinha a um modesto parque de diversões, desses que você não arriscaria subir na roda gigante por falta de confiança na manutenção do equipamento.  Uma coisa meio doida, que acaba não atraindo ninguém para a praça, salvo como passagem de um lado para o outro da via.

 Praça da Liberdade
Praça da Liberdade

5. Praça da Liberdade: é a praça central da cidade, numa definição curta e simples, embora imprecisa em termos geométricos.  Ela não fica no meio, mas é ela que representa o centro gravitacional do poder nas Minas Gerais.  Ao redor da Praça da Liberdade estão os prédios antigos da burocracia estadual, como o palácio do governo e as secretarias – hoje toda a administração foi transferida para longe dali, no caminho de Confins.  Mas o charme do lugar permaneceu.  É uma das praças mais bonitas que eu já vi, muito bem cuidada e muito bem frequentada.  Dá gosto!  Dizem – eu não conferi isso a fundo – que é melhor ainda nos fins de semana, quando nela são organizadas recreações e outras atividades comunitárias.  Um belo ponto turístico da cidade.  E só.

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2 Comments

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  1. Em muitas cidades, o campo de futebol e o centro religioso se confundem.

    No Rio de Janeiro, por exemplo.

  2. Me lembrou o Parque dos Patins, na Lagoa, que não é praça mas parece ter o mesmo sentido acima.

    O Parque dos Patins é uma alternativa. A praça, em BH, é a única opção.

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