O último gol

É estranho pensar nisso.  Mas à medida em que se fica mais velho, mais tempo se gasta pensando no fim.  Como será?  Quando?  Vai dar tempo para fazer alguma coisa?  É impossível prever.  Qualquer coisa que se tenha feito, pode ter sido a última.  A última viagem, a última visita a um amigo, o último beijo, o último post

Tenho gastado um tempo considerável pensando no último post.  Eu deveria deixá-lo escrito e agendado?  Imaginem um post ir ao ar muito tempo depois da minha morte?  Como ele seria recebido?  O que eu escreveria nele?  Uma piada, uma brincadeira, um texto sério, uma despedida, um pedido de desculpas…  Acho que, justamente por não saber a resposta a esta última pergunta, esse tal post não existe ainda além do plano da ideia.

Quando eu era moleque, bem moleque mesmo, eu tinha dois vizinhos bem mais velhos que jogavam muita bola.  Um deles, canhoto, era categoria pura, um esculacho.  Passava o pé sobre a bola e driblava quem quer que fosse – a despeito do corpanzil de contornos exagerados.  O outro, irmão mais novo dele, era mais alto, mais forte, não tão gordo, destro, era mais força (quase estupidez) do que categoria.  Os dois juntos eram impossíveis de serem vencidos.  Força e habilidade.  Eu não conseguia nem chegar perto para tentar tomar a bola, pequeno que sempre fui.  Ainda lembro o nome deles: Alexandre e Marcelo.

O negócio era tão desproporcional que eles poucas vezes se dispunham a jogar bola com a minha galera, bem mais nova.  A gente acabava se machucando nas trombadas, as boladas que a gente levava doíam…  Mas eu adorava.  De verdade, meu fascínio por aquela categoria do Alexandre me faziam topar qualquer parada para jogar a mesma pelada que ele.  Eu queria jogar bem como ele – e jogar com ele era o mais perto que eu podia chegar.  Foram poucas as vezes que eu tive esse privilégio, e faz tanto tempo que eu nem me lembro mais.  E, como se não bastasse, o Alexandre era muito gente fina, daqueles que têm a elegância nas palavras.  Tinha uma voz bonita e um papo para lá de agradável, mesmo com os pirralhos, como eu, que paravam a pelada para pedir que ele fizesse um único cruzamento para a gente cabecear na área.

Um belo dia o Alexandre apareceu na rua de muletas, pinos e mais pinos para fora do corpo.  Quando eu vi, eu só consegui pensar uma coisa: “quando é que ele vai poder jogar bola de novo?“.  Não cheguei a fazer a pergunta em voz alta.  E demorou até eu me convencer de que aquilo nunca mais iria acontecer.  Várias vezes eu quis perguntar a ele o que ele sentia quando via uma bola passar rolando ao seu lado, e ele ali, apoiado na muleta, sem poder dominá-la, acariciá-la, e lançá-la exatamente onde queria.  Várias vezes eu quis perguntar a ele qual teria sido a sua última pelada, o seu último gol.  Para mim, ele morrera em vida ao não poder mais apoiar o pé direito no chão com a firmeza necessária que pudesse permitir ao esquerdo fazer algo do que ele era capaz.

É por causa dele que eu me preocupo, até hoje, em manter na memória o meu último gol.  Jogando tão poucas peladas ultimamente, a boa memória é o que me resta de consolo.

Foi um lançamento ousado, não lembro de quem.  Eu girei o corpo para fugir do zagueiro e corri.  Era o início da pelada, por isso corri.  A bola ainda estava pererecando pelo gramado e eu dei o lance como perdido.  O zagueiro acompanhou e, creio, ele também deu o lance como perdido.  O goleiro era muito bom.  A gola esticou, numa das pererecadas, e eu acabei perdendo o ângulo para um bom chute.  Pensei em dominar a bola e tentar uma jogada melhor.  Eu perderia a bola, provavelmente.  Do jeito que ela quicava, eu com o corpo ainda frio, o time havia ficado para trás…  Se eu conseguisse dominar a bola, ainda teria que esperar muito tempo para o time chegar, ou arrumar um escanteio.  Avaliei todas essas possibilidades naquela fração de segundo e optei por usar a minha filosofia de jogo: papel de atacante é chutar para o gol e transferir o problema para o goleiro.  Convicto do que fazer mas nada convicto do bom resultado, apoiei o corpo sobre a perna esquerda e tentei acertar a bola entre uma pererecada e outra.  Seria um chute fraco, por causa do medo de isolar a bola sobre o gol.  Se o goleiro ficasse de pé parado, defenderia a bola lançada contra seu peito com facilidade.  Seria, no mínimo, um fim honroso para um lance improvável e uma corrida inútil.  Mas o goleirão resolveu ajudar – e eu só vi isso depois de chutar, tão surpreso quanto feliz…  Ele havia se abaixado – eu nem havia visto, estava olhando apenas para a bola – e inclinado o corpo para trás antes mesmo de eu chutar, esperando, possivelmente, um chute muito forte.  A bola, que tinha inicialmente a direção de seu peito, passou por cima dele e ganhou as redes.  Foi o primeiro gol de uma vitória de 4×2 do meu time.

Foi o meu último gol.

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2 Comments

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  1. Foi o último gol até agora, ainda virão outros.

    Exatamente. Sábado tem mais!

  2. Nostálgico!

    É sim. Mas esse foi o último gol por enquanto. Pretendo fazer mais.

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