Carta ao vizinho da frente

Rio de Janeiro, 08 de dezembro de 2013.

Meu caro vizinho,

Que festa foi aquela de ontem…  Você deve ter mesmo muito o que comemorar.  Coisas assim eu só imagino acontecer com aquelas pessoas que estiveram à beira da morte e conseguiram se safar.  Aí voltam para comemorar cada aniversário como se fosse o único e o último.  O que não faz muito sentido, mas eu faço o esforço de compreender.

Confesso que, mesmo não estando na festa – eu estava na minha casa, do outro lado da rua – jamais ouvira um som tão alto.  Compartilho com você o gosto pela música popular brasileira, gosto de samba e de pagode, mas naquele volume eu nunca havia escutado.  Acho que nunca houve necessidade para isso.  E, me perdoe a franqueza, um pagode de gosto meio duvidoso.  Tudo bem que, com uma certa dose de álcool, ele podia parecer tragável, mas não era.  O som estava ruim, a cantoria era pior ainda e o repertório era absolutamente inédito para mim.  Você pagou por aquele show?

Eu que não paguei dispensaria.  Aliás, sempre que você pensar em pagar por um show desse, pode colocar fora das suas contas a minha cota de participação, ainda que como ouvinte.  Sério mesmo: agradeço muito a gentileza de compartilhar gratuitamente comigo a música da sua festa, mas dispenso novas boas ações nesse sentido.  Para começar, prefiro os clássicos: de Noel Rosa a Zeca Pagodinho, de Cartola a Beth Carvalho.  Ontem, fora o hino do Cacique de Ramos, nada passou nem perto disso.  Depois, admiro a música de maneira mais modesta: som mais refinado, menos pancadaria nos instrumentos, menos volume na caixa de som, para conseguir degustar.  O contrário é só barulho.  E, por favor, tire o microfone dos bêbados e entregue-o aos sóbrios.  O próprio microfone vai agradecer; os ouvidos da vizinhança inteira num raio de 1km também.

Por fim, não entendi o motivo pelo qual a cantoria – que já havia desandado para um funk muito do ruim – terminou subitamente às 23:20h…  De repente, sem motivo aparente, sem aviso prévio, sem explicação…  O som simplesmente foi desligado!  Que raio de festa é essa que termina tão cedo e sem aviso?  Foram todos embora após o “parabéns”, cantado 40 minutos antes?  Visitas ingratas essas!…  Justo na hora que eu mais estava gostando do show…  Foi uma pena!  Vou esperar o ano que vem ansiosamente pela próxima.  Quem sabe eu não me junto a vocês?  Posso até pedir para a Fiona fazer uns brigadeiros – são memoráveis, garanto.  Fica a seu critério.

Forte abraço, e parabéns, seja lá pelo que for,

Leandro.

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One Comment

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  1. Vou promover o encontro entre ele e o meu vizinho da frente – ele fica no outro bloco, mas o apartamento dele confronta o meu.

    Olha que, em se tratando de festa, eu tô para ver um vizinho melhor que o meu…

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