Atendimento nota mil

Depois de cinco minutos de espera, chegou a minha vez de ser atendido:

– Eu queria um bolo de cenoura com cobertura de chocolate.

Enquanto eu terminava a frase, o telefone tocou.  A mulher nem se deu ao trabalho de anotar o meu pedido, tampouco de pedir para que eu esperasse.  Pegou o telefone, olhou para ele com ar de impaciência, apertou o botão e colocou-o no ouvido.

– Alô!  [Pausa]  É da Fábrica de Bolos, sim senhor.  [Pausa]  Esse não tem, escolhe outro.  [Pausa]  Tá, e é para entregar onde?  [Pausa]  Agora só tem entrega lá para as 16h, diz logo onde é o endereço senão não vai dar para entregar!  [Pausa]  Nesse endereço a entrega é só às 17h, vai querer? [Pausa]  Vai querer ou não vai querer?  Responde logo porque tem mais gente querendo ligar!  [Pausa]  Então tá: é um bolo de côco para as 17h, tá anotado.

E desligou o telefone.  Continuou anotando alguma coisa, provavelmente detalhes do pedido, no bloquinho, quando o telefone tocou novamente.  Eu mal cheguei a repetir o meu pedido.  Ela atendeu, não sem antes dar uma bufada impaciente.

– Alô!  [Pausa]  É da Fábrica de Bolos sim.  [Pausa]  Esse bolo não tem, pede outro.  [Pausa]  Então liga mais tarde, lá pelas 15h.  [Pausa]  Não sei, minha filha, eu não posso garantir que vai ter.  Liga para cá mais tarde e vê se tem.  Se tiver, ótimo; se não…  [Pausa].

E desligou o telefone, sem mais uma palavra sequer.

Eu estava em choque com a finesse da moça.  Mas estava louco, também, para saber como seria na minha vez.  Qual seria a grosseria?

– Eu queria um bolo de cenoura com cobertura de chocolate.

Sem olhar para mim, ela respondeu:

– Não tem, escolhe outro.

– Deixa eu ver…  Então eu queria um bolo mesclado com cobertura de chocolate.

– Não tem, escolhe outro.

– Qual bolo que tem?

Ela apontou para uma tabela que estava afixada na parede atrás dela.  A tal da tabela, eu já havia percebido, tinha uns dez tipos de bolos diferentes.  Os dois pedidos frustrados haviam sido colhidos dela.  Lá havia, além do bolo de cenoura e do mesclado, outros tipos de bolo.  Nenhuma indicação de quais bolos havia para venda e quais não havia.

– Tem esses bolos aí.  Escolhe um que tenha.  Mas anda logo porque tem mais gente na fila.

– Tem bolo de laranja?  Então eu quero um bolo de laranja com cobertura de chocolate.

Ela anotou o pedido, recebeu o dinheiro, pegou o bolo, pôs numa sacola plástica e me entregou.

– Mas cadê a cobertura e chocolate?

– Bolo de laranja não tem cobertura de chocolate.  Se você quiser cobertura de chocolate, da próxima vez escolhe um bolo que tenha cobertura.

Nem arrisquei perguntar quais bolos têm a tal cobertura de chocolate.

Depois disso, já voltei lá duas vezes – e fiquei frustradíssimo quando fui atendido por outra moça, muito simpática, ontem.  A graça do lugar é aquela mulher.  Ela devia ser tombada como atração turística.

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4 Comments

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  1. Certamente ela teria ouvido umas carícias linguísticas da minha parte, começando pelo local onde ela deveria tomar.

    A situação é tão escrota que fica hilária. Não dá para parar de rir.

  2. Não fala assim, Márcio! Ela é a versão feminina do Osmar (http://wp.me/pkUiG-kz)! E ler a história conseguiu ser mais engraçado do que presenciá-la!

    O Osmar é hors concours! Todo o resto é aprendiz.

  3. Menino, tô nessa vibe também, de apreciar mau humor alheio e admirar pessoas hiper ranzinzas, rs.

    Quando não é coisa séria, é divertido.

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