A nega?

– Eu quero a minha nega!

A primeira vez que eu ouvi essa frase fiquei me perguntando o que diabos seria essa tal de nega (pronuncia-se nêga, não néga).  Algum tempo depois acabei entendendo, a nega era uma espécie de revanche, de tentativa de reverter uma derrota, de empatar um jogo.  Uma segunda chance para tentar provar que a derrota fora um golpe de azar, não uma constatação de inferioridade.  Muito comum nos jogos de bafo (ou abafa, isso varia).

Ilustração do jogo de bafo para idiotas
Ilustração do jogo de bafo para idiotas

Nunca achei a nega um artifício legítimo.  Ninguém jamais combinou, antes do jogo, que em caso de revés, a nega seria um direito do derrotado, ao qual o vencedor não poderia recusar.  O combinado sempre foi o jogo.  Ganhou?  Ótimo.  Perdeu?  Pague.  Quer jogar outra partida?  Sem problemas – mas a primeira é passado.  Apesar do meu entendimento, sempre vi a nega ser tratada como um direito sacrossanto de contornar uma derrota: outro jogo, em igualdade de condições, com as mesmas regras do jogo anterior.  Ruim, mas não chega a ser odiável.  O orgulho do vencedor, ao meu ver, é o elemento que mais contribui para a legitimidade da nega.

Ai de quem experimentasse, porém, depois do jogo terminado, dizer que ele não valeu porque… a unha do dedo mindinho do adversário estava mal cortada.  Isso era inaceitável – o suprassumo da humilhação, a assinatura do atestado de incompetência -, mesmo que “estar com as unhas bem cortadas” fosse uma regra combinada antes do início do jogo.  Ou, pior que isso, fosse recorrer a um terceiro para que este arbitrasse a questão.  Humilhação dobrada.  Sairia vencedor na desavença, provavelmente.  Regra é regra, afinal de contas, por mais estúpida que seja.  O combinado não é caro, diz o ditado.  Uma vitória de efeitos vexatórios.

Sim, porque a repercussão do feito seria imediata.  Como um rastilho de pólvora, a notícia se espalharia e rapidamente essa pessoa se tornaria alvo da incessante e intensa da maior chacota da galera.  O bullying – palavra que nem existia na época – se tornaria tão legítimo quanto a nega, e tão institucionalmente reconhecido quanto a vitória obtida mediante o fraco argumento da violação da regra da unha cortada.  O outro efeito, mais impactante, seria o gelo: ninguém mais toleraria ser seu adversário em um jogo de bafo.  Nunca mais.  A danação eterna como sentença tácita de repulsa àquela odiosa maneira de se inconformar com uma derrota.

Ninguém, em sã consciência, jamais optou pela vergonhosa e humilhante vitória, quando tinha como opção a digna e honrosa derrota.  Jogar outra partida?  Uma revanche?  Uma nega?  Tudo bem.  O revanchismo não é o sentimento mais nobre do mundo, mas é digno – e, no seio das disputas esportivas, sadio.  Todo mundo quer ser merecedor de uma segunda chance, em iguais condições, para provar que tem seu valor.  Qualquer outra coisa além disso…

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2 Comments

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  1. “Ninguém, em sã consciência, jamais optou pela vergonhosa e humilhante vitória, quando tinha como opção a digna e honrosa derrota.” Sei não, hein… tem uma turma aí que já fez essa escolha três vezes.

    Quando eu disse ninguém, quis falar da molecada que jogava o jogo de bafo.

  2. E parabéns pela roupa nova! Ficou bacana.

    Gostou? A voz continua a mesma.

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