Sem chorar

Banho com sono é uma briga sem fim.  E, no sábado, eu tive que encarar essa briga.  Ela estava caindo pelas tabelas.  E imunda.  Suada, com pés e joelhos sujos, cheia de marcas de tinta guache azul pelo corpo, resultado de uma festa de arromba da amiga da escola.  Já havia sido uma proeza da nossa parte conseguir que ela chegasse em casa acordada.  Colocar no banho era só mais um grande desafio.  E é nessas horas, de sono extremo, que se percebe como o cérebro simplesmente para de funcionar.

Quando ela era mais nova, era possível perceber nitidamente que o sono estava chegando porque ela, ao caminhar, desabava no chão subitamente.  Era como se o disjuntor desligasse.  Estava andando, caía, acordava com a queda, levantava e continuava andando.  Até cair novamente.  Ultimamente, são as birras, as malcriações e a tradicionalíssima coceira do olho os sintomas mais claros de que o Zé do Sono a está abraçando.  E as respostas atravessadas também.

Eis o vilão da história
Eis o vilão da história

O banho já não estava tão empolgado assim.  Começou bem, mas foi só começar a lavar a cabeça para tudo mudar.  E piorou quando eu lavei o seu rosto.  Eu estava usando o sabonete em pedra da Granado, versão infantil, crente que o efeito seria o mesmo do sabonete líquido.  Caiu sabão no olho, na hora de enxaguar.  Ardeu.  E o resultado da equação “olho ardendo+sono=muita coceira no olho“, o que só piora a situação.  Adiantou explicar?  Adiantou pedir para não coçar o olho?  Lógico que não.  E, nessas horas, ela chora – com certa dose de razão.

Papel de pai, porém, é chamar a filha para a realidade, tentar trazê-la de volta à serenidade necessária para se tratar de um problema.  “O banho não vai terminar enquanto você não parar de chorar.”  Isso pode parecer que vai gerar um círculo vicioso.  O banho não termina, então a criança chora mais, então o banho não termina, então a criança chora ainda mais…  Só até ela recuperar um pouco da consciência e resolver investir naquilo que você sugeriu.  Funciona sempre.  E, quanto mais funciona, mais funciona – por mais óbvio que essa frase possa parecer.

Ainda chorosa, não mais chorando porém, ela pediu que o banho acabasse.  “Filha, papai não entendeu o que você falou.  Fala sem chorar.

Sem chorar“.

E o banho teve que terminar ali, sob as risadas debochadas da Fiona, que esperava do lado de fora com a toalha na mão para secá-la.

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5 Comments

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  1. Dormir sem banho não mata. Dizem até que cria anticorpos…
    Quando meus filhos tinham essa idade, eu já os trazia pra casa “limpos”, de pijama e dormindo. Era só tirar do carro direto para o berço.
    Tinha para tal os seguintes cuidados antes de sair da festa:
    1) Lavava bem as mãos e escovava os dentes.
    2) Passava uma tolhinha úmida nas partes sujas do corpo (na minha época não tinha lenço umedecido).
    3) Trocava a fralda e colocava o pijama.
    4) Na manhã seguinte, ao acordar vinha o banho e a troca da roupa de cama.
    5) Simples, não?

    Simples na época em que as festas eram na casa dos amigos, com banheiro e infraestrutura adequada. Numa casa de festas ou no playground do prédio de um parente do aniversariante não funciona assim tão bem.

  2. … mas esse relato me fez lembrar um episódio que nos faz rir até hoje: “segura na orelhinha!”
    Kkkkkkkkk

    Na verdade, ele foi igual ao “papassá“.

  3. Essa literalidade me lembrou muito de uma pessoa ruiva e baixinha com quem eu casei…

    Podes crer.

  4. Hahahaha, vocês como sempre querendo demais da criança!

    Tem funcionado…

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