Festa de Granfino

Nunca frequentei tantas festas como desde que a Felícia nasceu.  E isso nem é tanto culpa dela.  Não gosto de recusar convites para festas.  Não sou festeiro, não sou daqueles que vai para festas para comer e beber de graça.  Sou comedido e não curto festas.  Gosto mesmo dos encontros, de rever as pessoas, abraçar e felicitar os amigos.  É por isso que eu insisto em não recusar convites para festas.  E esse meu mau hábito me leva a comparecer a todos os milhares de compromissos sociais da Fiona, da Felícia e meus também.

E, frequentando esses ambientes sociais repletos de crianças pequenas da mesma idade, comecei a prestar atenção nelas.  Percebi, por exemplo, que crianças de uma mesma idade apresentam enormes diferenças entre si nos quesitos habilidade motora, comunicação, controle emocional, interesse/curiosidade e comportamento.

Comportamento…  Enquanto os outros quesitos não me causam nenhum espanto, o comportamento me causa enorme espanto.  E eu não me refiro ao fato de uma criança ser bagunceira e a outra organizada, uma ser muito ativa e a outra quieta.  Não é isso.  É o comportamento social, o relacionamento com outras crianças da mesma idade e com os adultos ao redor.  Uma criança que chega na festa, vê um brinquedo na mão de outra criança, sai em disparada e toma-lhe o brinquedo da mão, usando de certa violência, sem maiores explicações, me assusta.  Da mesma forma que me assusta uma criança de três anos sentar um soco na cara de outra criança da mesma idade na disputa por um saquinho de pipocas.

Essas duas cenas eu vi na festa que fui no último domingo.  O mais legal foi ver que o valentão da primeira cena mijou-se menos de trinta segundos depois de se apropriar violetamente do tal brinquedo.  Ironia do destino (um “valentão” se mijando!!!) que, não fosse isso motivo para humilhação suficiente, ainda agravou-se pelo fato de a mãe não estar precavida, com roupas reservas, obrigando o menino a ficar só de blusa pela festa por um tempo (isso o tirou de circulação quase que pela festa inteira, para alegria dos demais presentes).  Não fosse isso, creio que teria sérios problemas naquela festa.

Diferenças sempre existirão.  Entre adultos ou entre crianças.  A questão é como resolvê-las.  Crianças que não pedem licença para passar, que não pedem desculpas após derrubar algo ou alguém, que não cedem a vez para outras…  Isso sempre vai acontecer.  Faz parte do processo de aprendizagem.  Mas já é possível, mesmo nas mais tenras idades, notar quem se esforça para pedir desculpas, licença, fazer de novo tentando acertar, ajudar alguém com dificuldade, e quem está pouco aí para o que acontece aos outros.  Sou da teoria de que isso tem muito mais a ver com o comportamento dos pais do que com a genética da criança.  E tenho bons exemplos que comprovam a minha teoria.  Aliás, quanto mais reparo no assunto, mais tenho convicção de que estou certo.

E noto também que em festas realizadas em meios sociais mais abastados a presença de crianças com esse tipo de comportamento egoísta e – ao meu ver – indesejável se dá em número notadamente superior às festas realizadas em meios sociais menos favorecidos.  Frequento com a mesma habitualidade festas em Bangu e em Ipanema.  Posso asseverar que minhas observações são consistentes.  Em Ipanema há mais crianças valentonas do que em Bangu.

Por que?  Em Ipanema, crianças têm babás, frequentam creches, as melhores escolas do país, têm acesso aos melhores meios de comunicação, uma vida repleta e regalias e comodidades…  Por que sentar um soco na cara de uma outra criança que ele nunca viu só porque essa outra criança está na posse de um brinquedo com o qual ele quer brincar sozinho?  Em Bangu, crianças não têm babás, frequentam creches públicas, escolas públicas, mal sabem o que é internet e têm poucos brinquedos – e, mesmo os que têm, não são tão sofisticados quanto os das crianças de Ipanema.  Por que conseguem conviver bem – rusgas existem, sempre existirão -, dividir brinquedos e alegrar-se juntas com tão pouco?  Por que são tão mais educadas do que aquelas que, em tese, recebem a melhor educação?  Por que é tão mais fácil ouvir um pedido de desculpas em Bangu do que em Ipanema?

Minha teoria é de que há muito mais pais desinteressados em adotar esse tipo de comportamento positivo e solidário em Ipanema do que em Bangu.

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3 Comments

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  1. A resposta é que talvez os pais de Bangu supram suas faltas apó um dia longo e difícil de trabalho dando amor e atenção ao invés de fazer uso de internet, sair com amigos, jantar fora, querer silêncio para ler um livro etc, e os de Ipanema o fazem trazendo brinquedos caros para seus filhos.
    Tudo uma simples questão de atenção e valores.

    Talvez. Mas só talvez.

  2. O comportamento das crianças está diretamente ligado à atitude dos pais. Pais mal educados e sem noção têm, em geral, filhos mimados e desagradáveis que, quando crescerem, vão ser mais mal educados e sem noção que os próprios pais. E nós e nossos filhos vão conviver com eles diariamente no futuro.

    Essa é a minha teoria. E foi assustador olhar para os pais e pensar isso deles.

  3. Mas olha, felizmente (ou não), não é definitivo. Sim, porque conheço crianças que foram mal educadas e que se tornaram adultos conscientes, e crianças educadas que se tornaram adultos egoístas….

    Torço muito para que elas se endireitem.

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