Oponibilidade

Imagine viver sem o polegar.  Aliás, não imagine.  Tente abrir uma garrafa de refrigerante sem usar o polegar.  Ou ensaboar as próprias costas sem usar o polegar para segurar o sabonete.  Ou então escovar os dentes (desde o ato de colocar escova na pasta até segurar a escova durante a escovação) sem utilizar o polegar.  Ou soltar o freio de mão do carro.  Vai lá!  Sério mesmo, tente.  Faça o teste.

– É isso que nos diferencia dos outros animais – disse-me a Fiona, com toda autoridade do mundo, quando eu me queixei a ela.

Machuquei o polegar da mão direita.  Jogando futebol.  Para variar, um futebol condenado por ela.  Sim, porque toda vez que ela se posiciona contrariamente à pelada, eu saio machucado.  E eu já deveria ter aprendido essa lição.  Mas como recusar um convite para jogar futebol?

Meu time perdia por 2×1.  De virada.  O gol do meu time fora feito com um passe meu – desconcertante, por sinal, deixando o outro atacante com o gol escancarado, provavelmente o gol mais fácil da sua vida.  Eu já estava exausto.  O lateral direito já havia pedido para eu abrir na ponta direita para ajudá-lo a atacar, mas eu já havia recusado a proposta alegando cansaço.  Esse sol do Rio de Janeiro, calor de quase 40 graus, às 10h da manhã…  Mesmo que eu ainda pesasse meus gloriosos 66 quilos da época que saí da faculdade, não conseguiria prestar-lhe o apoio.  Mas meu time resolveu atacar pela ponta esquerda.  Após um tremendo golpe de sorte, a bola sobrou cambaleante para o meia esquerda que desfez-se da bola de qualquer maneira, na direção do gol.  Vi que o goleiro sairia para pegá-la e me julguei em condições de fazer a interceptação.  Na melhor das hipóteses, eu dominaria a bola e giraria para ver se prosseguiria com a jogada.  Alguém poderia ter entrado na área diante da minha ausência daquele reduto santo.  Na pior das hipóteses, eu sofreria um pênalti provocado por uma eventual saída estabanada do goleiro.  O jogo estava por terminar e não me restava outra alternativa.

Não só cheguei muito atrasado na jogada – tanto que tive que pular o goleiro que, àquela altura, já estava com a bola nas mãos.  Na queda, bati com o polegar da mão direita no chão, sob o peso todo desse corpanzil quase obeso – entendam, pois, a momentânea raiva da nutricionista.  Tudo isso no exato instante em que o juiz apitava o fim do jogo.

Agora eu estou aqui meio aleijado, já há mais de uma semana, sem poder sequer apertar a mão das pessoas que eu encontro na rua decentemente.  Só com aquele aperto frouxo, que compromete apenas os outros quatro dedos da mão – ou então ver estrelas a cada aperto de mão.

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2 Comments

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  1. Marcas da batalha. Melhor machucar o polegar do que levar uma bolada no saco.

    A bolada no saco já teria parado de doer.

  2. Vivendo e aprendendo a valorizar as pequenas coisas.

    Meu polegar não é tão pequeno assim. E ele ainda dói.

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