O teu cabelo não nega

Fevereiro.  Calor danado.  E a cidade respira o carnaval que se aproxima.  Este ano, fevereiro não sobreviverá para ver a festa profana, mas estenderá seu tapete para que ela chegue em março, com marchinhas de carnaval.  Nada excepcional: são essas marchinhas que nós cantamos todos os anos, desde pequenos.  Não sabemos de onde vieram, quando foram feitas.  Temos que são de domínio público, afinal de contas o público inteiro tem o perfeito domínio delas, tanto que as canta ao som de uma breve convocação do trombone, três notas ou menos.  Verdadeiros clássicos do cancioneiro e da cultura nacional.

A música foi o grande sucesso do carnaval de 1932.  Naquele ano, não teve para Francisco Alves, não teve para Noel Rosa, não teve para Mário Reis, não teve para Carmen Miranda, não teve para ninguém.  O povo na rua aclamou essa alegre (e debochada) composição de Lamartine Babo, gravada por Castro Barbosa, a sua preferida.  Isso na época em que várias marchinhas de boa qualidade disputavam o coração da cidade ano após ano.  Noel Rosa, naquele ano, “concorreu” com a ótima AEIOU (em parceria com Lamartine Babo) e a célebre dupla Francisco Alves e Mário Reis gravou a péssima Marchinha do Amor – ambas de esquecimento público.

Há quem diga, hoje, que a letra tem um fundo racista, pejorativo, machista…  Não é nada disso!  É uma louvação à miscigenação brasileira, a essa figura símbolo do Brasil e do carnaval brasileiro: a mulata.  Com direito a inserções debochadas e veladas de protesto contra a Ditadura de Getúlio Vargas nas estrofes – porque marchinha de carnaval que é marchinha de carnaval tem que falar das atualidades, como uma revista anual.

E, se me permitem uma última observação, ouçam a introdução da marchinha.  Só a introdução, feita com trombone.  É a melodia-símbolo do carnaval de rua carioca.  Apenas isso.  Obra de Lamartine Babo.  Chamá-lo de “gênio” talvez ainda seja pouco.

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One Comment

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  1. Pois é, mas essa música hoje jamais seria gravada justamente porque seria considerada machista, sexista e depreciativa. Ai, que mundo chato…

    E todo mundo hoje em dia ainda canta, sem sequer pensar no que diz a letra. Estilo iarnuô.

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