Prazer, meu nome é Destino

– Bom dia!
– Bom dia! Como você está?
– Muito bem.
– Que ótimo! Sente-se, fique à vontade.
– Obrigado.
– Quer água? Café?
– Whisky, por favor. On the rocks.
– Gosto sofisticado. Não é comum encontrar quem goste de beber em uma entrevista de emprego.
– Eu chamo isso de personalidade.
– Eu chamo de excentricidade.
– Como queira. [serve o whisky] Conte, então, a sua experiência.
– Minha especialidade é fazer as coisas acontecerem. É o que eu faço, o que eu sei fazer e, modéstia à parte, é o que eu faço melhor.
– Explique, por favor.
– Com prazer. Nada acontece por acaso. Tudo tem uma explicação lógica, uma origem, uma causa, ou várias. O que eu faço, resumindo, é organizar esses acontecimentos, encadeá-los e, assim, fazer as coisas acontecerem. É isso.
– Entendo. Interessante isso. Não é comum encontrar gente com essa expertise.
– Claro! Porque eu sou o único nesse segmento do mercado.
– Isso não facilita a minha escolha. Há outras pessoas na fila de espera para serem entrevistadas hoje para esta vaga. E tenho certeza que todas elas garantirão serem capazes de dar conta do recado.
– Eu não duvido. Mas, para que eu possa convencê-lo, preciso saber o que você espera da pessoa que quer contratar. Qual é o trabalho? Qual é o projeto?
– O projeto é um campeonato de futebol que, inclusive, já está em andamento. Mas está muito chato. Precisamos agitar um pouco, dar mais sentido a ele. Quase ninguém tem falado a seu respeito. A nossa missão é gerir as partidas. Todas elas, uma a uma. Nosso papel é decidir o resultado de cada uma e, em última análise, o campeão. Na minha ótica, a pessoa que ocupar a vaga terá a atribuição e a responsabilidade de tomar essas decisões segundo sua expertise.
– Entendi. E quem são meus concorrentes para a vaga? Sem saber isso, não poderei lhe convencer que sou a melhor opção.
– Desafio aceito. Deixe-me ver… As fichas estão aqui na minha mesa… [procura em meio a vários papéis no canto da mesa, puxa alguns e encosta novamente na poltrona] Pronto: Sorte, Competência, Mala Preta, História, Tradição e Preparo Físico.
– Pode parar: eu faço sozinho o que eles só são capazes de fazer juntos. E, como eu disse, faço até melhor. Meu diferencial de qualidade é a capacidade de coordenar todas essas expertises.
– Além de excêntrico, você é pretensioso. Gosto disso. Fale mais.
– Posso fazer o que vocês querem conjugando todas as características dos senhores que estão sentados lá fora, ponderando o peso de seus atributos e tomando as decisões corretas, uma para cada partida. E, acredite, tudo isso com lógica.
– Para que a lógica? Se as pessoas quiserem saber o óbvio, não se interessarão pelo campeonato.
– Permita-me discordar: o lógico não é o óbvio. Eles não são a mesma coisa. O óbvio provoca o desinteresse, sim; o lógico não: provoca discussão, debate, opiniões, incita e instiga. Imagine um jogo decidido pela lógica da Sorte, outro pela lógica da Competência, outro pela lógica do Preparo Físico?…
– O campeonato teria sua legitimidade questionada. Perderia a credibilidade e cairia no mesmo desinteresse que está agora. Podemos até considerar, pontualmente, diversidades lógicas em determinadas decisões. Num jogo ou outro, no máximo. Mas, no geral, deve haver um resultado que respeite a lógica da Competência.
– Mas, se a Competência está lá fora, esperando para ser entrevistada juntamente com tantas outras pessoas, é porque você, na verdade, está interessado em algo mais. Esses campeonatos por pontos corridos não estão mais causando o interesse de antes no público. Estou errado?
– Exemplifique seu raciocínio, por favor.
– Campeonato Carioca de 2001. Um time muito superior liderou todo o campeonato na lógica da Competência. Foi o time que mais somou pontos, mais venceu, mais fez gols. No jogo final, perdeu, porque naquele jogo, especificamente, a lógica preponderante foi a da Tradição. Não há quem esqueça esse jogo.
– Tem outro exemplo?
– Copa do Mundo de 1998. Um time claudicante e nada tradicional no cenário mundial do futebol enfrenta um time competente, tradicional e repleto de craques no jogo final. Uma questão extracampo foi preponderante para o resultado e até hoje se especula a esse respeito.
– Ok, você me convenceu. Quero um teste. Amanhã haverá um jogo no Maracanã. Vasco x Flamengo, se não me engano, por um campeonato que não vale nada. O público está completamente desinteressado, os ingressos estão caros, enfim: é só um teste. Não prometo nada. Mostre todo o seu potencial e a vaga será sua.
– O senhor não vai se decepcionar. Mostrarei a diferença entre o óbvio e o lógico de uma forma que ninguém jamais viu.
– Como assim?
– O Flamengo vencerá. Isso é óbvio. Não por ser o time mais competente, mais afortunado, mais tradicional, nada disso. Também não permitirei que a Mala Preta mostre seus dotes. A lógica que decidirá esta partida será a minha própria lógica. Garanto que falarão do jogo como há muito o senhor não vê.
– Ok. Está dispensado. Mas, antes que eu esqueça, qual é mesmo o seu nome?

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