Encoxamento inevitável

Certa vez uma mulher, dita estudiosa do feminismo e da “ciência” que envolve as relações sexuais, disse que, sendo inevitável o estupro, a mulher deveria aproveitar-se ao máximo da ocasião para retirar dele todo o prazer que lhe fosse possível.  Obviamente ela não foi tão elegante com as palavras quanto eu tentei ser ao parafraseá-la.  Nem tão feliz também.  Duvido que ela pusesse em prática seus próprios ensinamentos.

Digo isso porque a lotação que o transporte público alcança em certas horas do dia torna também inevitável o excessivo contato físico entre os usuários.  É sovaco na cara, tronco suado no braço, mochila dura machucando, até gente passando mal…  Tem de tudo mesmo.  Até encoxamento.

Certa vez, não faz muito tempo, entrei num metrô desses.  Lotado até o talo, pior que camburão.  Ali não cabia nem mais um.  Quando eu achei que não caberia mais ninguém, entraram ainda uns dez.  Isso fez com que os mínimos espaços do vagão fossem ocupados por corpos, todos tocando em todos.  Espremiam-se uns contra os outros os usuários.  Não dava para ninguém se mexer.

Nessa de apertar mais e mais para caber mais gente no vagão, o povo vai procurando os espaços, as brechas, e acaba parando não onde quer, mas onde é levado.  Há pouco o que se fazer nessas horas, senão proteger-se, tentar não machucar ninguém e pedir desculpas por qualquer inconveniente.  Aconteceu comigo naquele dia, e também com uma garota que acabou ficando com o corpo completamente colado ao meu, de frente para mim.

Quando eu dei por mim, já estava naquela posição.  Ela também.  E não havia muito o que fazer.  Não dava para mudar, não era possível se mexer.  O rosto dela estava tão próximo ao meu, pressionado para frente pelo ombro do sujeito, muito maior, que estava atrás dela, que eu tinha que manter a esquiva para nossos narizes não se tocarem.

– A senhora me desculpe.  Essa situação é tão constrangedora para mim quanto é para você.

Ela riu.  Não sei se da situação patética em que nos encontrávamos ou da minha sincera cara de constrangimento diante daquilo tudo.  Talvez não esperasse sequer um pedido de desculpas, afinal de contas a culpa daquilo não era minha.

Na estação seguinte, a pressão aumentou ainda mais, com mais duas ou três pessoas conseguindo a proeza de entrar naquele vagão.

– Você acredita que outro dia, num metrô cheio assim, o homem deu um apertão na minha bunda?  Eu estava de vestido, por causa desse calor que anda fazendo, e o cara pôs a mão por baixo da minha saia e apertou a minha bunda.  Fiquei morrendo de raiva.  Vontade de matar o sujeito.

– A minha mão está aqui, ó.

Uma das minhas mãos segurava o teto do metrô, a outra estava colada junto ao meu corpo, na altura do meu, digo, dos nossos peitos.  Obviamente aquilo era uma piada minha.  Eu jamais colocaria a mão na bunda dela mas, do jeito que estávamos, e só naquele momento eu me dera conta disso, as costas da minha outra mão estava em contato com o seio dela.  Ela novamente sorriu.

– Honestamente, eu não sei por que vocês mulheres ainda insistem em andar fora do vagão de mulheres.  Especialmente nesse horário.  Se eu fosse mulher, só andaria lá.  Nem tanto para fugir dessas situações inconvenientes, como essa que a gente está agora.  Mais pelos barracos que devem rolar lá.

– Ih, você nem imagina.  De manhã cedo, é diversão na certa.  Sempre tem barraco.  Vou rindo da Pavuna até a Central.

– Eu tinha muita vontade de ver isso.

A conversa não progrediu muito além disso.  Preferi não esticá-la, embora cresse que a simpatia da moça permitiria.  O estado em que nos encontrávamos não recomendava.  Nosso contato corporal já era íntimo demais.  Chegando perto da estação que eu desembarcaria, pedi desculpas mais uma vez pelo ocorrido.

– Vou saltar.  A senhora me desculpe o inconveniente.  Foi um prazer, no bom sentido, se é que você me entende.

Ela entendeu, lógico.  Ainda bem.  O encoxamento, naquela situação fora tão inevitável para mim quanto para ela.  E, mesmo sendo inevitável, nenhum dos dois tirou dele o tal proveito máximo que a dita “estudiosa” certa vez recomendou.

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2 Comments

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  1. Numa dessas situações eu estava colada barriga a barriga com outra mulher, quando ela fala pra mim: nossa, sua barriga tá tão quente…olhei séria pra ela e respondi: só o metrô mesmo pra fazer a gente ter mais intimidade com um estranho do que com o namorado, Pois eu nunca ouvi isso de nenhum. Rimos juntas e continuamos no encoxamento, fazer o que.

    A barriga dela estava fria?

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