Abuso do poder econômico

Domingo de sol, passei no jornaleiro para comprar o jornal.  Lógico que meu interesse não era o jornal nem suas notícias.  Era o que viria junto com o jornal, de brinde: o álbum de figurinhas da Copa do Mundo.

O álbum
O álbum

Uma vez a cada quatro anos a Copa do Mundo acontece, uma vez a cada quatro anos eu e muitas pessoas que conheço se dão ao direito de lembrar da infância voltando a ser criança.  Colecionar figurinhas não é um vício, não é um hobby – é apenas uma brincadeira legal, assim como jogar futebol, tocar violão, andar de bicicleta, jogar sueca e videogame.  No caso do álbum de figurinhas, quanto mais gente fazendo, melhor.

E, como o Rio de Janeiro em massa costuma, de quatro em quatro anos, aderir à brincadeira, a Copa do Mundo acaba se tornando a única ocasião em que é possível, no mundo dos fatos, colecionar figurinhas.  Nenhum outro álbum tem o mesmo apelo, ainda que seja sobre futebol.

Comprei o jornal e, mais tarde, voltei ao jornaleiro para comprar as figurinhas.  A esta altura, já havia um monte de gente cercando o pobre coitado do jornaleiro, que mal sabia quem atender primeiro.  Aguardei mais ou menos o que seria a minha vez.  O próprio jornaleiro indicou-me que estava na hora de eu dizer o que queria.  Ainda havia umas quatro crianças à minha volta em busca da sua atenção.

– E você, o que você quer?
– Quanto custa o pacote de figurinhas?

Eu esperava que ele fosse dizer R$2,00 ou R$2,50.  Hoje em dia tudo anda tão caro – surReal, na gíria carioca – que eu já tinha o espírito preparado para o pior, pessimista.  Se custasse mais barato que isso, certamente não viriam as tradicionais cinco figurinhas dentro do pacote, viriam menos – menas, na gíria carioca.

– Um real.
– E quantas vêm em cada pacote?
– Cinco.
– Sério?
– Vai querer quantos pacotes?

Eu não tive dúvidas.  A nota de vinte reais que eu tinha na mão seria torrada integralmente na minha primeira compra, custasse o quanto custasse o pacote de figurinhas.

– Vinte pacotes.

Ele parou, pensou, pegou um bolo no balcão e começou a contar.  Enquanto ele contava silenciosamente, as outras crianças não paravam de gritar:

– Eu quero dois!  Eu quero três!  Eu quero cinco!

Quando ele acabou de contar, sobraram apenas três na mão dele.  Eu acabara com o seu estoque de pacotinhos naquela compra.  E as crianças perceberam a escassez.

– É meu!  Vende para mim, moço!  Eu quero!!!

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3 Comments

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  1. Criança grande! Fiquei com pena das outras…ehehe! Que saudade de colecionar um álbum de figurinhas. Acho que o último que colecionei foi de alguma novela, não lembro qual.

    Álbum de figurinhas de novela?

  2. Maldade! Vai comprar pacotinhos de figurinha nos muitos jornaleiros do Centro da Cidade (local que você está todos os dias úteis) onde não tem criança.

    No centro tá em falta.

  3. Eu pensei a mesma coisa quando comprei minha primeira leva de figurinhas. Também foram vinte pacotinhos. Lembrei de quando era criança e comemorei por ter comprado cinco pacotinhos em um álbum que eu nem completei.

    Duro é seguir o propósito de só abrir cinco pacotinhos por dia…

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