227

Então a cada quatro anos voltamos a ser crianças. É bom isso. A cada quatro anos voltamos a pintar as ruas, enfeitar as casas, os carros, somos dispensados da escola e do trabalho para assistirmos os jogos em casa. Que força é essa que autoriza empresas a abrirem mão de horas de trabalho para que seus funcionários assistam a sete jogos de futebol em casa? Que força é essa que desculpa a ausência de crianças da escola? Que força é essa que faz todo mundo interromper a vida para acompanhar na televisão os representantes do país numa competição esportiva?

É a mesma força que nos permite repetir velhos hábitos, adquiridos ainda na infância, e que nos lembram aqueles anos dourados em que não tínhamos grandes responsabilidades. Doce época. Boas lembranças. Não que tenhamos que nos comportar infantilmente. Absolutamente não. Basta-nos lembrar um daqueles hábitos, a cada quatro anos. Colecionar figurinhas, por exemplo.

Meu primeiro álbum de figurinhas não foi da Copa do Mundo. Isso na época em que colecionar figurinhas era tão comum entre crianças quanto assistir filmes no youtube é hoje. Ao lado do futebol, da bicicleta e da pipa (a pipa nunca foi muito a minha praia, mas eu arriscava de vez em quando), um grande passatempo. Meu primeiro álbum de figurinhas da Copa do Mundo foi em 1990. Quanto tempo…

E lembro perfeitamente da última figurinha do álbum: um sujeito do time da Escócia, integrante do Grupo C daquela Copa do Mundo, o mesmo grupo do Brasil. Não lembro o nome dele exatamente. Era a figurinha 227. Passei um tempo procurando por ela. Ninguém a tinha repetida. O fato até hoje me faz desconfiar seriamente se os fabricantes de álbuns de figurinhas realmente seguram alguns personagens obscuros do álbum e liberam aqueles mais famosos, para não gerar especulações por parte do público. Talvez seja apenas uma teoria da conspiração, mas eu a provei na pele.

Como foi difícil encontrá-lo. Alguns amigos a tinham colada ao álbum. Outros não a tinham. Ninguém a tinha repetida. Movimentei muita gente na busca daquela figurinha. Até que eu encontrei um pirralho no recreio que afirmou tê-la. Ele, porém, não estava com seu “bolo de repetidas” na mão. À tarde ele o teria. Marcamos a troca. Apesar de ser mais velho que ele – o que era suficiente para que ele, implicitamente, temesse pelo pior em caso de descumprimento do acordo -, eu não estava nada seguro daquilo. Iniciou-se, então, uma verdadeira caçada ao moleque. Persegui-o durante todo aquele recreio; almocei na mesa ao lado da dele, olhando para ele ostensivamente; acompanhei todos os seus passos, passei pela sua sala de aula umas duas vezes durante a aula; aguardei-o na porta da sala na saída para o recreio da tarde.

– Cadê?
– Tá aqui.
– Vamos lá fora.

Quem lê esse diálogo acha que eu estava no controle da situação. Que nada! Eu estava me borrando de medo do moleque pipocar. Pior: de ele já ter trocado a figurinha ou de ter se enganado.

– Tenho 19 figurinhas repetidas. Se você tiver mesmo a 227 eu te dou meu bolo todo.
– Sério?
– Sério.
– Beleza!

Sentamos num banco, ele mostrou a figurinha e eu entreguei todo o meu bolo de repetidas para ele. No elástico. Sem ver. Não me interessava ter figurinhas repetidas se eu já havia completado o álbum. Apertei a mão dele, aliviado. Agora era só colar no álbum. Pus a figurinha no bolso e fui lanchar. Tocou o sinal, fim do recreio, hora de voltar para a sala e reencontrar o álbum.

– Leandro!
– Fala, Marquinhos.
– O garoto da primeira série tá reclamando que você o enganou. Devolve a figurinha agora!
– Eu enganei?
– Ele disse que você trocou uma figurinha que você não tinha por outra que ele já tinha?
– Como é que é?
– Devolve agora!
– Marquinho, deixa eu explicar…
– Tá na hora da aula, me dá aqui a figurinha e vai para a sala. Depois a gente conversa. A figurinha vai ficar comigo. Anda!

Entreguei a figurinha. Moleque filho da puta! Quis matá-lo de porrada. Como assim? Eu troco uma figurinha por dezenove e ele ainda conta mentira para o inspetor para melar meu álbum?

Na saída, procurei o Marquinho.

– Marquinho, o que aconteceu?
– O moleque me disse que você pegou uma figurinha dele que você não tinha e deu para ele uma que ele já tinha. Leandro, francamente, isso não se faz. Olha o seu tamanho e olha o dele.
– Marquinho, deixa eu explicar: falta uma figurinha para eu completar o meu álbum e é essa que está aí no seu bolso. Eu disse para ele que, se ele me desse essa figurinha, eu dava todo o meu bolo de repetidas para ele. Foi isso que fiz: dei dezenove figurinhas para ele em troca de uma. O que eu posso fazer se ele já tinha as dezenove?
– Você trocou uma por dezenove?
– Troquei. E em nenhum momento ele disse que queria ver meu bolo de repetidas, nem que tinham que ser dezenove figurinhas que ele não tinha.
– Peraí.

O Marquinho saiu da sala dele. Eu fiquei ali sentado esperando. Dois minutos depois, entram ele e o moleque na sala.  Olhei no olho dele com toda a raiva que eu estava sentindo naquele momento, e ele baixou a cabeça, evitando o contato.

– É verdade isso que ele está falando?
– Ele só me deu figurinha que eu já tinha…
– Mas quantas figurinhas ele te deu?
– Esse bolo aqui…
– Cara, você trocou uma figurinha por um bolo. Você levou vantagem.
– Mas eu tenho todas. Não quero. Quero a minha figurinha de volta.
– Você já tem essa figurinha. Vai querer uma repetida de volta em vez de dezenove repetidas? Pensa bem. Você troca essas figurinhas e se dá bem, cara! Deixa de ser bobo.

Muito contrariado, ele aceitou o acordo. Ficou com o bolo. E o Marquinho me deu a 227. E eu fui correndo colar no álbum, para não ter mais problema.

Este ano, logo na primeira leva de pacotinhos, eu tirei a 227. Alívio.

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2 Comments

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  1. Garoto novo, inexperiente. Tinha muito o que aprender. Como dizia Osmar, o ser humano tem de ser ético.

    Eu fui. Ele não. Moleque.

  2. É isso aí…
    O encanto da vida e ser eternamente criança.
    Que venham muitos álbuns!

    Um a cada quatro anos, pelo menos.

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