Como se a culpa fosse minha

Desde as manifestações de junho do ano passado muita coisa mudou no transporte público urbano rodoviário carioca.  Não no conteúdo, logicamente.  O preço da passagem já aumentou (mais do que na época das manifestações), criaram um aplicativo para lá de fajuto para “ajudar o usuário do transporte público” – o Moovit (não percam seu tempo baixando esse aplicativo), e resolveram investir em propaganda para melhorar a imagem do sistema.

De todas as iniciativas, essa última é a mais odiosa, ao meu ver.  Ela mascara os problemas, tenta iludir o usuário, dando aparências boas a coisas que são ruins, não funcionam, não melhoram.  É o mesmo que tentar transformar uma pessoa burra e de má índole no salão de cabeleireiro.  Quem faz isso, confessa tacitamente que não está nem um pouco interessado em resolver o problema; prefere ocultá-lo sob as aparências de um belo tapete.

Naquela viagem de ônibus, conduzida pelo Gardenal, reparei que a programação visual dos informes no interior do coletivo estava muito diferente do habitual.  Placas adesivas novas, com cores fortes e impessoais, letras arredondadas (para parecerem fofinhas e amistosas), recados claros e diretos direcionados aos usuários.

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De uma delas tirei foto.  Não ficou muito boa, tremeu.  É difícil tirar uma foto sofrendo a pressão do princípio da liquidificadoriedade.  A foto é essa aí do lado.  Diz ela (permitam-me repetir seus dizeres, para facilitar a vida de quem não puder lê-la por causa da falta de nitidez da fotografia): “O que é coletivo é seu também“; abaixo do desenho da mão: “Lugar de parar é no ponto.  Dê sinal com antecedência.

Quem usa o transporte público rodoviário urbano carioca sabe que é extremamente comum as paradas fora dos pontos.  Muitas delas por conveniência do motorista, outras por conveniência do passageiro.  Nenhuma aconteceria, porém, se os motoristas fossem educados em regras de segurança e de trânsito, afinal de contas, o poder sobre as portas cabe exclusiva, soberana e divinamente a eles apenas.

A questão, portanto, não trata do momento em que é efetuada a solicitação de parada do coletivo.  Até porque eu já cansei de ver os passageiros acionarem a cigarra com antecedência e o motorista defecar solenemente para o pedido.  Sem falar naqueles ônibus nos quais a cigarra simplesmente não funciona, obrigando o passageiro a se valer do trocador para levar ao conhecimento do motorista o seu desejo de desembarcar.

Melhor seria investir na solução do problema.  Mas isso é caro, demorado, e dá trabalho.  É mais conveniente e cômodo fazer placas adesivas novas, colá-las no interior do coletivo e dizer que a culpa do mau funcionamento do sistema é do passageiro.

Ah, e a título de curiosidade: na viagem, o Gardenal ignorou um pedido de desembarque, dois pedidos de embarque e jamais parou o veículo a menos de meio metro do meio-fio (uma vez parou em fila dupla e outras três a mais de um metro).  Se a culpa é realmente minha, da próxima vez eu vou dirigir o ônibus.  Assim eu resolvo o problema.

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One Comment

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  1. Muito apropriado. Apoiado!

    Obrigado. Da próxima vez, pedirei votos.

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