Imagina na Copa…

Aeroporto Internacional Galeão-Tom Jobim.  Terminal 2.  Desembarque Internacional.  Enquanto aguardo ali por algumas pessoas que estão chegando do exterior, testemunhei – repito: eu testemunhei com os meus olhos e os meus ouvidos – a cena a seguir.  Excepcionalmente, fugindo à tradicional linha editorial deste blog, este conto não segue com ponto de aumento.  Perdoem-me por isso.

Três estrangeiras – fiquei na dúvida se eram espanholas ou portuguesas – saíram e pararam no quiosque de informações turísticas instalado ali aparentemente pela Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro solicitando informações sobre como chegar à rodoviária do Rio de Janeiro.  Elas aparentavam ter 25 a 30 anos.  O senhor, magro, moreno, grisalho e de cabelos e barba bem rasteiros, indicou-lhes uma mulher que estava um pouco adiante, num daqueles estandes de agenciamento de táxis credenciados.

Elas, seguindo a indicação, saíram da área de desembarque (o ponto a partir de onde não se pode retornar) e foram recebidas pela tal mulher, ainda encostadas no balcão de informações turísticas, ao invés de estarem no estande de agenciamento de táxi.  Essa mulher ostentava um crachá daqueles que as pessoas que trabalham no aeroporto utilizam.  Ela era bem morena, ligeiramente gorda, tinha cabelos curtos com a raiz escura e a ponta dos fios descoloridos.  Ela iniciou o diálogo com as três estrangeiras:

– Para onde vocês querem ir?
– Rodoviária.
– Ah, mas a rodoviária é muito longe.  Quanto vocês estão dispostas a pagar?

Elas se entreolharam, com dúvida.  Certamente não esperavam uma pergunta como aquela.  A interlocutora do grupo respondeu, sem certeza do aval das demais.

– Cem reais?…
– Ih…  É pouco.  A rodoviária é muuuito longe.  Mas eu vou ver se alguém aceita levar vocês por cem reais.

Ela, então, chamou o rapaz que conduz os passageiros do estande ao táxi e pediu para que ele fosse lá fora ver se havia algum taxista disposto a conduzir as três estrangeiras à rodoviária por cem reais.  O rapaz também era moreno, magrelo, e estava com aquela camisa de abotoar amarela, tipicamente utilizada por quem faz aquele serviço.

Ele saiu, não demorou trinta segundos, e voltou balançando a cabeça negativamente.

– Eu falei para vocês que cem reais era pouco.  Vocês não querem oferecer mais?

As meninas estavam atordoadas, atônitas.  Mal conseguiam se comunicar.  Que dirá ter algum controle da situação que lhes permitisse imaginar que valor seria suficiente e justo pela corrida.  Como não conseguiam formular nenhuma proposta, a mulher se adiantou.

– Eu acho que se vocês oferecerem quatrocentos reais, vocês vão conseguir.
– Quatrocentos reais?

Elas se entreolharam, assustadas, mas anuíram balançando a cabeça afirmativamente.  Chegar em um lugar diferente, domingo à noite, sem perfeito domínio do idioma, é mesmo barra pesada.  A mulher, então, pediu que o rapaz magrelo fosse novamente lá fora verificar se havia algum taxista disposto a levá-las à rodoviária por quatrocentos reais.

Ele novamente saiu, demorou menos que da primeira vez, e voltou fazendo sinal de positivo.  As estrangeiras ficaram nitidamente aliviadas.  Alívio que durou pouco: a mulher apresentou nova dificuldade.

– Como é que vocês vão pagar?  Cash?
– Sim.
– Reais?
– Divisas.
– Ih…  Eles não aceitam divisas.  Só aceitam reais.  Vocês terão que fazer câmbio.
– Onde?
– Aqui mesmo.

A mulher chamou um maleiro que já estava ali na saída pronto para entrar em ação.  Era um homem alto, branco e de cabelos raspados.  Usava uma roupa vinho com detalhes dourados e, no bolso do peito, havia um brasão e a inscrição “Maleiro”. Ele se aproximou e a mulher o inteirou da situação e da necessidade das estrangeiras. Ele, então, chamou as três para um cantinho, como se quisesse guardar o ato em segredo, puxou um maço de notas do bolso inferior direito da camisa e trocou por notas de dinheiro que uma das estrangeiras havia sacado da coleira escondida dentro da calça.

Revoltado com a situação, saí dali e fui procurar um agente da Polícia Federal.  Ele foi muito solícito.  Largou o que estava fazendo e na hora foi comigo até o local.  Do mezanino, apontei para ele todos os envolvidos no esquema e expliquei a tramoia.  Ele, porém, esclareceu que não poderia fazer nada além de “dar uma moralizada na situação” pois aquela área era jurisdição da Polícia Civil.  A jurisdição dele se restringia à área interna do desembarque.

Depois de desbaratar temporariamente a quadrilha, ele me contou que a mulher lhe dissera que agenciou uma viagem de táxi para Búzios, e não para a rodoviária – o que, ainda assim, é uma história estranha pois, se uma corrida até a Barra, na tabela, custa R$175,00, ir até Búzios por R$400,00 não é coerente.

O agente da Polícia Federal se despediu de mim e foi embora.  A mulher, então, começou a gritar impropérios para mim, em tom que todos ali pudessem ouvir.  Com receio do que me poderia acontecer, sumi dali.  Enviei uma mensagem para a pessoa que eu estava esperando e marquei um ponto de encontro bem longe dali.

O pior de tudo isso é que nada é novidade.  Fazendo uma rápida pesquisa na internet, localizei várias matérias de jornal noticiando a prisão de maleiros envolvidos em câmbio ilegal e lavagem de dinheiro.  Basta ver aqui e aqui dois exemplos.  E notem que o primeiro link é de uma matéria do jornal O Globo que está no site do Senado Federal referente à intensificação das ações policiais para coibir esse tipo de golpe por ocasião dos Jogos Panamericanos de 2007.

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3 Comments

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  1. Parabéns pela iniciativa de denunciar, Leandro. Rodoviárias e aeroportos no Brasil, infelizmente, estão infestados de criminosos. Mas qual foi o fim das turistas? Pagaram mesmo os 400 reais ou o policial chegou a tempo?

    No Brasil não. Os táxis de vários aeroportos que eu conheço (Congonhas, Fortaleza, Brasília, São Luís…) são eficientes e honestos.
    No fim das contas, o golpe foi consumado e elas pagaram 400 mangos pela corrida. Eu e o policial chegamos atrasados.

  2. Eu acho que isso é pouco, muito pouco, perto do que vai acontecer.
    E pensar na raiva sobre os taxistas argentinos. Iniciantes, perto disso…

    Quem é vivo sempre aparece!
    Taxistas argentinos são amadores perto da turma do Galeão…

  3. Eu fico tão indignado e frustrado com cenas assim que nem consigo encontrar palavras para fazer um comentário. Só tenho raiva e uma sensação de que não adianta, não tem jeito, não vai mudar, não vai melhorar.

    Agora pergunta se havia um policial militar ou civil no aeroporto?

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