Brazuca safada

– Ih, galera, peraí.  Vou ali no carro pegar uma parada!
– Não, rapá, ficaí!  Vamo começá logo!

Não teve jeito.  Ele saiu correndo pela lateral do campo.  Os outros treze ficaram ali com cara de otários, esperando a sua volta para iniciar o jogo.  Onze fominhas e dois goleiros improvisados, só para garantir a realização da pelada.  Sábado de manhã, na Penha, chovendo.  Só os abnegados e fominhas peladeiros vão entender.

O cara entrou abriu a porta de trás do motorista, abaixou-se para pegar algo, saiu, fechou a porta e voltou correndo.  Era uma bola.  Fala sério!  Já tem uma bola no centro do campo.  Para que outra?  Esperem aí!!!  É uma…  Brazuca!…

Brazuca...
Brazuca…

Sim, senhores, era uma Brazuca.  Não uma réplica: era a oficial – que faz um barulho diferente ao quicar no chão, ao ser chutada, que não machuca ao ser cabeceada, que é leve e macia, sinuosa e esguia, precisa e repleta de poros.  Brazuca, a bola da Copa do Mundo.  Ali, na minha mão.

Que saída de bola que nada!  Já esperaram tanto, esperem um pouco mais.  Fui à minha bolsa, peguei o celular e tirei uma foto minha com ela.  A galera riu, mas entendeu.  Eu, olhando para ela, com aquela cara de “hoje eu vou lhe usar…“.  Na verdade, eu pensava, hoje eu vou te enfiar no gol.  Na verdade, na verdade, todo mundo pensou a mesma coisa.  E, quando a pelada finalmente começou, foi um tiroteio.  Todo mundo pegava a bola e chutava para o gol de onde estivesse.  Todo mundo queria metê-la no barbante.

Foi essa zona até sair o primeiro gol.  Aí a coisa ficou séria.  Com alguém perdendo, era hora de jogar futebol sério, competitivo.  Esqueceram a fome de gol e resolveram pensar o jogo.  Eu só havia dado dois toques na bola.  Até ali, meu jogo era só marcação.  Vida de lateral esquerdo de pelada não é nada fácil.  Justo eu, que não sei marcar.

O time adversário não era bobo.  No comando do ataque, Júnior Negão.  Ele mesmo.  Tudo bem que ele estava jogando no modo “super easy” mas, ainda assim, era ele.  Jogaram a bola na direita e eu saí na marcação.  Fui empurrando o ponta para a bandeirinha de escanteio, tentando cortar suas opções.  Ele virou-se rapidamente e tentou o cruzamento.  Chutou a bola no meu saco.  Caí.  Foi o meu primeiro contato íntimo com a Brazuca.  E dele jamais vou me esquecer.

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One Comment

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  1. Intimidade demais pro meu gosto. Eu também notei que não tenho lido nenhuma crítica à Brazuca, ao contrário do que acontecia com a indigitada Jabulani, de quem até os atletas da Adidas reclamavam.

    Foi muito bom jogar com ela, depois de me recuperar da bolada.

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