Diana, taxista

Cada um tem a sua história.  A dela era mais ou menos assim.

Funcionária pública, moradora de Vila Valqueire.  Nos últimos seis anos, deixava a filha na creche do trabalho enquanto trabalhava.  Todos os dias.  Até que a filha cresceu e teve que deixar a creche para começar na escolinha.  E as contas da casa foram para o negativo.  Além da escola, material escolar, uniforme, atividade extracurricular, despesas que ela não tinha enquanto fazia uso da creche do trabalho, havia ainda duas filhas do primeiro casamento do marido, que dividiam as despesas do lar.

O salário só não bastava.  Era preciso fazer alguma coisa para ajudar o marido.  Ela tomou a decisão.  Resolveu dirigir o táxi.  Não havia outro jeito.  Ela tinha que ajudar.  E como ganhar na loteria estava fora de cogitação, só lhe restava o trabalho para incrementar a renda do lar.

Ela possuía a autonomia há dez anos, mas nunca havia dirigido profissionalmente.  Alugava a autonomia, ao invés.  Isso rendia mil e duzentos reais por mês, sessenta reais por dia útil.  Viu que podia ganhar mais se trabalhasse dobrado: de oito às duas no emprego, de duas às dez no táxi.  O marido, também funcionário público, dirigiria o táxi nos fins de semana e de madrugada.  Assim fez.  Assim fizeram.

Ela estava rodando na praça há menos de um mês, desde que entrou de greve.  Mal dava para saber se conseguiria equilibrar as contas do lar.  Reclamou de dores nas costas.  Trabalho cansativo, estressante.  O trânsito do Rio de Janeiro maltrata qualquer um.  Pelo menos o carro era automático.  Impossível pensar em dirigir profissionalmente no subúrbio carioca com carro de câmbio manual.  O outro carro da família, de câmbio manual, se revelara uma tortura no passeio do último fim de semana.

O marido era mais medroso do que ela ao volante.  Não tinha medo de acidentes, tinha pavor de assaltos.  O Rio de Janeiro não anda fácil para ninguém, principalmente para quem está na rua o tempo todo, trabalhando e ganhando seu dinheiro.  Por qualquer coisa, matam um pai de família.  De madrugada, pior ainda.

O dia havia sido um dia como outro qualquer, mesmo com a greve de ônibus.  Quem anda de ônibus não tem dinheiro para pegar táxi, prefere tirar o carro da garagem.  Estranha filosofia, mas quem era eu para contestar?  Ela já estava voltando para casa quando eu fiz sinal.  Uma bênção fazer parte do caminho de volta com um passageiro no fim do dia.  Com sorte, conseguiria outro até mais perto de casa.

Despedimo-nos.  Boa noite!  Felicidades.  Pode ficar com o troco.  Um sorriso largo e sincero.

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One Comment

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  1. Lembrei de “Antonio Alves, Taxista”: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_Alves,_Taxista

    Nossa… Tirou essa do fundo do baú.

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