Davi, balconista

– Não tem problema faltarem dez centavos.  De judeu eu só tenho o nome e a cara.

Foi com essa piada infame, feita por ele próprio, que a nossa conversa começou, ali no balcão da loja de material de construção do bairro.  Eu nunca havia conversado com ele além do essencial numa relação cliente-fornecedor.  Poucas vezes, também, vi alguém tão educado, cortês e correto nos negócios quanto ele.  Sem contar o meu fascínio por já tê-lo visto falar francês fluentemente em ocasiões passadas – enquanto eu arranhava meu francês, catando palavras, conjugações e flexões esquecidas em cantos remotos da memória.

– Você não repare, mas eu estou assim hoje porque a minha senhora está internada lá no Hospital Italiano.  Ela passou mal do coração domingo e os médicos a internaram.  Aí eu passei a noite lá com ela, mas aquela cama de quarto de hospital não é nada confortável, sem contar aquele entra e sai de gente para dar remédio…  Não dormi direito, estou com dor nas costas…

Bocejou, afastou os óculos do rosto e coçou os olhos, recompôs-se.

– Mas vamos lá.  Coloque a sua senha aqui.

Entregou-me a máquina do cartão de crédito.  Pus a senha e avisei que não era necessário me dar a segunda via do extrato.

– Muito bom.  Menos papel no mundo e menos custo para a gente também.  Muito obrigado.
– Realmente, é menos papel para jogar fora.  Mas eu vou precisar de uma nota fiscal ao invés do cumpom.  O senhor se incomoda de me dar?
– Claro que não.  Aguarde só um instante.

Ele lavrou a nota e pediu que eu acusasse o recebimento no canhoto com a minha assinatura.

– Que dia é hoje?
– Hoje é dia 21 de maio de 2014.  Hoje fazem 41 anos da primeira vez que eu saltei de paraquedas…
– O senhor fala francês, saltou de paraquedas…  Era da Força Aérea?
– Não, do exército.  Fui sargento de comunicações.
– Porque é comum encontrar pessoas que falam francês na Força Aérea.  Lá a língua oficial foi o francês por muito tempo, devido aos Mirage que vieram ao Brasil com os manuais em francês.
– É verdade, mas no meu caso não foi isso.  Quando eu tinha dezoito anos o meu sonho era ser piloto da Força Aérea.  Eu era para ter sido piloto, tinha todas as condições para isso mas meu pai, que era maçom, disse para eu não me preocupar com a prova, porque ele resolveria tudo na loja maçônica.  Acabou que eu fui reprovado no exame de vista e não consegui ser piloto.  Eu sempre falei para ele que não queria nada com a loja maçônica, não queria favores deles, que aquilo era problema dele, e isso acabou virando uma grande frustração para mim.  Aí eu saí de casa, fugi, fiquei um ano sumido.  Naquela época não tinha telefone, não tinha celular, era bem mais fácil sumir.  Não liguei, não avisei, simplesmente sumi.  Quando meus pais me encontraram, um ano depois, eu já estava graduado no exército.  Nas férias, meu pai sempre me dava um dinheirinho para eu passear e eu aproveitava para fazer uns cursinhos.   Eu sempre gostei muito de ler, de estudar, por isso preferia fazer esses cursos a gastar com bebida, essas coisas da vida.  Por causa disso, eu nunca peguei numa vassoura no exército.  Já entrei lá sabendo fazer um monte de coisas.  Aí o pessoal gostava de mim, me puxava, me requisitava.  Trabalhei bastante, mas nunca na vassoura.

Foi uma pena outro cliente ter chegado na loja.  Ele teve que atendê-lo e a nossa conversa terminou ali.

– Au revoir!
– Au revoir, monsieur…

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2 Comments

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  1. Simpático, agradável e gentil. Adoro gente assim!

    Sim, mas rebelde e muito falante.

  2. Esse é o tipo de cara cada vez mais difícil de encontrar nesse mundo chato de hoje.

    É um sujeito bacana sim, mas muito melancólico.

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