Demência

Meu primeiro sinal de demência foi há oito anos.  Eu simplesmente não conseguia me recordar se era socialmente aceitável sair na rua usando apenas cuecas.  Passei uns quinze minutos em frente ao armário, nu, tentando me decidir entre usar ou não usar roupas para ir à padaria.  Lembro como se fosse hoje.  Eu tentava me lembrar de roupas que eu havia usado para sair anteriormente.  A memória me escapava.  Só conseguia lembrar de cenas da minha longínqua infância, no subúrbio de João Pessoa, e nessas cenas eu só conseguia ver meninos sem camisa, correndo, brincando.  Foi o porteiro que me chamou de volta à realidade, quando eu já saía do prédio, de cueca e chinelo.  E eu ainda insisti, julgando-o pela sua notória falta de inteligência.

É possível que algumas vezes antes eu tenha manifestado algum sinal menos evidente da doença.  Esse foi o mais sintomático, o mais claro e, por isso, considero-o o primeiro.  Ao menos é o mais antigo do qual tenho lembrança e consciência.  De lá para cá foram tantos outros que de muitos eu sequer me recordo.  Aliás, depois de um tempo eu passei a desconfiar que minha mulher e meus filhos passaram a se valer da doença como desculpa para restringir minha liberdade.  Coisas que eu tenho certeza de que posso fazer e vou conseguir fazer, eles não deixam.  Por exemplo: outro dia eu quis dirigir meu Passat e eles disseram que eu havia vendido o carro há trinta anos.  Como pode se a chave dele está guardada na gaveta da minha cômoda?  Pena que eu hoje não possa mais alcançá-la.

Depois de um tempo me levaram na frente de um juiz.  Contaram a ele algumas coisas que eu havia feito e outras que eu não havia feito para impressioná-lo.  O juiz, então, quis conversar comigo.  Tive que mostrar a ele que eu estava bem.  A cabeça às vezes falhava mas, no geral, eu tinha plenas condições de continuar trabalhando, cuidando dos meus afazeres, vivendo a minha vida independente.  Lembro desse dia como se fosse hoje.  O sabor de vitória a gente não esquece.  Ele não sabia da guerra que estávamos travando contra o Chile pelo controle da Patagônia.  Também não sabia as diferenças entre o Apolo e o Verona.  Foi fácil mostrar a ele que eu não estava tão ruim da cabeça assim.

Não naquela época.  Hoje está bem pior.  Tenho esquecido de tudo ultimamente.  Onde guardei minhas fezes ontem?  Atrás do armário?  Debaixo da cama?  Ou enterrei-as no quintal?  Realmente não sou mais tão bom nisso quanto há algum tempo.  Há algum tempo não vejo mais o fio do telefone.  Esses meninos ficam andando para lá e para cá falando com aquilo no ouvido só para não me darem atenção.  Mas se não está com o fio ligado, óbvio que não está funcionando.  Eles querem me evitar.  E eu me recuso a falar sozinho naquilo.  Tiraram todos os fios de telefone da casa, só para eu não poder pedir socorro se algo me acontecer.

Agora só me resta esperar pelo fim, tomando meus remédios e fazendo exercícios idiotas com aquela mulher feia que vem me visitar de vez em quando.  Ela me chama por de “Seu Carvalho”.  Acredito ser um notório sinal de demência precoce, pois meu nome não é esse. Curioso é que eu lembro de ouvir a minha filha dizer isso a ela.  Será que a minha filha estava pregando-lhe uma peça?  Jamais saberei.  Ela nunca vai me contar.  Nossas conversas não são mais como antes.  Ela voltou a ser uma criança, teima com tudo, vive brigando comigo, dizendo o que eu devo e o que eu não devo fazer.  O mundo dá voltas e volta sempre ao mesmo lugar.

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One Comment

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  1. Eu ia comentar alguma coisa, mas não lembro…

    Não vá sair de cueca na rua, por favor.

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