A inocência japonesa

É interessante ver como hábitos e culturas de um  povo se refletem no comportamento de seus cidadãos, onde quer que eles estejam, seja lá o que eles façam.  O jogo de ontem foi prova disso.

Brasil e Croácia entraram em campo para a abertura do mundial e nenhum dos dois estava satisfeito com a escalação do árbitro, o japonês Yuichi Nishimura – o único árbitro profissional do torneio de 2010, com formação universitária em arbitragem desportiva, e possivelmente também o único deste torneio.  Nishimura já havia dado dois vacilos históricos em duas partidas diferentes da Copa de 2010: Brasil x Holanda e na final entre Espanha x Holanda (partida em que figurou como quarto árbitro e se omitiu ao não relatar uma agressão claríssima de Sneijder, cometida a dois metros dele, ao árbitro principal da partida).

O jogo começou lento e nervoso.  Acho que o locutor estava mais nervoso que os jogadores, mas isso é só um detalhe.  Jogo de ataque e contrataque.  Eu já vi vários assim.  E esse não será o último.  E não tardou muito a se perceber que, àquela altura, o contrataque era mais eficiente que o ataque – ou menos sonolento.  Os laterais do Brasil deram muito espaço para as descidas dos croatas o jogo todo e foi assim que surgiram as principais jogadas da Croácia: contrataques pelas pontas, obrigando um dos zagueiros brasileiros a sair da área para o combate.  Quando Luiz Gustavo falhou ao não cobrir de maneira eficiente a saída de Tiago Silva da área, a bola passou um metro à sua frente e resultou no gol contra de Marcelo (quem menos teve culpa no lance).

Vamos ao lance novamente, desde sua origem.  Paulinho, lento de raciocínio e mais lento ainda de corpo, dá um bote tudo ou nada no meio campo e fica com o nada.  Daniel Alves, que estava lá no ataque, cede o buraco na defesa para que a Croácia acelere o jogo junto à lateral do campo.  A próxima linha de defesa é composta por Tiago Silva que se vê obrigado a partir para o mano-a-mano, deixando uma distância de mais de vinte metros para David Luiz.  Nesse espaço, deveria entrar o Luiz Gustavo – que desacelera a corrida e não chega na bola.  A imagem é claríssima, mas nem o glorioso e sempre certo “analisador tático” viu isso.  Aliás, me impressionou o cuidado da transmissão oficial em não crucificar nenhum jogador brasileiro no lance, durante o intervalo.

O Brasil finalmente acordou na partida.  Sofrer o gol parece ter sido a melhor coisa que aconteceu ao Brasil nesta Copa, até aqui.  Não são deuses, nosso gol pode ser vazado.  É bom tomar cuidado, de verdade.  Com boas jogadas, o gol foi amadurecendo, até que…  Um braço aberto – aquilo não foi uma cotovelada, vamos deixar bem claro – próximo ao rosto de um croata para lá de malandro quase pôs tudo a perder.  Nem tanto pela clara possibilidade de um cartão vermelho.  Muito mais pela esfriada que a pequena confusão que se seguiu deu no jogo.

O Brasil voltou a ser o time dos lances improváveis.  E foi justamente um lance improvável que resultou no gol de empate.  Bate-rebate-pipoca-briga-sobra-cai-levanta-erraopasse-brigadenovo-bate-rebate e eis que a bola sobra no pé de Neymar que chuta errado…  Mas a bola entra, isso é o que importa.  Entra naquele único vãozinho possível, entre a mão do goleiro e a parte da trave que se predispõe a empurrar a bola para dentro do gol, não para fora.  Fosse a baliza quadrada, não redonda, a bola possivelmente não entraria.  Tudo igual, alívio no país.  Intervalo de jogo.  Não seria dessa vez que o Itaquerão aprontaria das suas com o time da casa.

Aí a mineirice entrou em campo.  A mineirice que faltou ao Brasil em 2010, naquele jogo contra a Holanda.  Fred foi “isperto”.  Ele deve ter analisando o árbitro antes do jogo, visto as partidas que ele apitou, o jeito dele de interpretar os lances…  O modo como o árbitro separou David Luiz e o defensor croata num escanteio logo no início do jogo era a senha.  Não estava acontecendo nada demais na área naquele escanteio, mas ninguém pode se tocar na área, na cabeça do japonês.  O futebol deve ser leal assim no Japão.  Não é no resto do mundo.  Foi só a mão esquerda do zagueiro tocar de leve o ombro do Fred que ele desabou de bunda no chão, chorando um pênalti.  Medida arriscada.  Fosse um árbitro italiano ou inglês, ele levaria cartão amarelo por simulação.

Só foi pênalti no Japão.  Mas no Japão foi pênalti.
Só foi pênalti no Japão. Mas no Japão foi pênalti.

Haverá quem diga que isso é feio, não é justo, não é do jogo.  Eu diria que é do jogo sim.  Usar a arbitragem e seus critérios a seu favor é do jogo sim.  Isso não é “ganhar roubado”, como dizem por aí.  Em 95% do mundo, não seria pênalti.  Na cabeça do japonês, é.  E todos os jogadores tinham condições iguais de entender isso – inclusive a defesa croata.

De bico também vale!
De bico também vale!

Dali para frente, o árbitro se perdeu completamente em campo.  Errou lances bobos e menores, perdeu o pouco respeito que tinha dos vinte e dois jogadores.  O Brasil melhorou com a saída de Paulinho.  Hernanes deu mais estabilidade à marcação do meio-campo e confiança aos laterais.  Quando Felipão pediu que o Brasil se armasse no 4-4-1-1, Neymar não conseguiu se achar atrás de Fred e foi sacado.  Oscar – disparadíssimo o melhor em campo, líder em roubadas de bola e mentor intelectual de todos os gols do Brasil – foi fazer a função e acabou fazendo o gol, num chute de bico, porque já não aguentava mais correr atrás da bola.  Uma meia sorte do árbitro, que vai ganhar um bilhete de volta para o Japão, provavelmente.

Saldo do jogo: 1 gol de contrataque, dois gols de bolas recuperadas no campo de ataque e um gol de bola parada.  Essa Copa promete ser assim.  Boas tramas de ataque resultando em gols serão raras.

No duelo de abertura do mundial, entre Brasil e Croácia, venceu o Japão.

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One Comment

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  1. Ótima resenha! Mas eu acho que Neymar foi substituído mais em função do desnecessário cartão amarelo que ele recebeu no início do jogo do que por opção tática. Concordo totalmente com a sua descrição da jogada do gol contra, da apatia do time no início do jogo, da má atuação do Paulinho e das boas substituições. Acrescento, porém, que o Júlio César também não foi bem: nas poucas vezes em que ele foi acionado ele esteve inseguro.

    Pra acabar, acho um pouco exagerada a sua análise quanto à origem dos gols da Copa. Ainda está cedo, acho que vamos ver algumas coisas mais interessantes que isso.

    Realmente, por enquanto a minha previsão está um pouco exagerada. Mas contra esses times mais fracos a marcação na saída de bola não vai precisar ser tão dura.

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