Futebol é momento

Se há um time que merece a Copa do Mundo – e a recíproca é verdadeira – é o Uruguai.  Nenhuma seleção encara a Copa do Mundo como o Uruguai encara.  Nenhum escrete dá à Copa do Mundo sensacionalismo, brilho e competitividade como o Uruguai.  E isso não é nenhum exagero – ao menos eu acho que não.

Olhe a tabela de qualquer Copa do Mundo e perceba: você pode não se interessar por assistir um determinado jogo da Itália; você aceita trocar um jogo da Alemanha por um passeio em família; você pode até trabalhar durante um jogo da Espanha ou da França.  Você jamais vai fazer isso confortavelmente quando o Uruguai estiver em campo.  Vai faltar concentração, vai haver aquela ponta de arrependimento, vai estar presente a curiosidade a respeito do jogo.  O que estará acontecendo?  O que eles estarão aprontando?  Como eles vão conseguir se superar?  O que de espetacular eles vão fazer dessa vez?  Uma catimba sem precedentes?  Um pênalti cavado?  Uma bobeira da zaga?  Uma arrancada para um gol sensacional?  Um gol no último minuto?

Com o Uruguai em campo, não tem jogo ruim.  Ao menos em Copa do Mundo, não.

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Jogar para o empate é para os fracos.  O Vasco da Gama que o diga.  Pode rolar um erro de arbitragem, pode rolar uma falha na linha do impedimento, pode rolar uma ombrada de costas na bola após a cobrança de um escanteio e…  Ops!  Gol do adversário?  E não há muito mais tempo para reagir porque você já gastou tudo em sucessivas simulações de cãimbras?  Acabou o gás para correr no calor de 13h em Natal?  E você vai ser eliminado pela segunda vez seguida na fase de grupos, mesmo com quatro títulos mundiais nas costas?  Itália, café de jacu para você.

Café de Jacu. Uma singela homenagem à Itália, que hoje tomou no Suárez.
Café de Jacu. Uma singela homenagem à Itália, que hoje tomou no Suárez.

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Por falar em Suárez, o leitor desse blog já deve ter uma exata noção da minha admiração por esse atacante.  Um sujeito que tem a audácia de tentar transformar um campeonato insípido numa Libertadores da América, merece admiração.  Não significa que eu concorde ou incentive a distribuição de mordidas ou dentadas em jogos de futebol profissional.  Acho que ele deve – e vai – levar uns belos cinco jogos de suspensão.  Para mim, mero espectador, porém, um jogo temperado com atos assim é muito mais saboroso de assistir.  Luizito vai fazer muita falta, mais para mim do que para o Uruguai.

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Alguém teve coragem ou saco para assistir Costa Rica x Inglaterra?  Não vi um lance, não li uma linha, e desconfio que só os costarriquenhos e o Príncipe Harry assistiram esse jogo.  Possivelmente mais gente se interessou por Irã x Nigéria.

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Quase tivemos um confronto no estilo “pique-chiclete” nas oitavas-de-final.  Quase mesmo!  Não fosse aquele pênalti no fim do jogo…  A Costa do Marfim italianou: teve a bola do jogo num contrataque 4 contra 2 e não aproveitou a oportunidade.  No lance seguinte, deu mole, fraquejou, cometeu um pênalti, esfacelou-se emocionalmente.  A Grécia, que pelo futebol apresentado nesses três jogos, mostrou que sequer deveria estar na Copa do Mundo (fez hoje, no seu terceiro jogo, o seu primeiro gol na Copa), vai avançar para a próxima fase.  Culpa, em parte da Costa do Marfim; culpa, em parte, da Fifa que permitiu a formação de um grupo ridiculamente fraco como esse Grupo C.

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Nem Homero seria capaz de narrar essa vitória da Grécia em um romance épico.  Fosse eu grego, tivesse sofrido desde o primeiro jogo até o último minuto do jogo de hoje, até a cobrança daquele pênalti, eu pensaria assim.  Que Ilíada o cacete!  O negócio da Grécia não é mais derrotar Troia, mas a Costa do Marfim.  Trocaram o Egeu pelo Golfo da Guiné; Pátroclo por Samaras.  Agora vão enfrentar a Costa Rica – e seja o que Zeus quiser!…

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Vou dormir muito impressionado com o desempenho da Colômbia.  Jogou com o time reserva e se deu ao luxo de colocar o goleiro reserva Mondragón em campo para homenageá-lo e escrever seu nome na história (o ser humano mais velho a jogar uma Copa do Mundo), sobre o do mítico Roger Milla – que, ironicamente, destroçou a Colômbia de Higuita, Valderrama e Escobar, há 24 anos.

O que me faz concluir que essa Copa do Mundo, até agora, não é a Copa dos grandes jogadores, mas do grandes técnicos, aqueles que, apesar dos parcos recursos, conseguem montar equipes mais competitivas do que outras seleções melhor providas de bons jogadores.  Foi assim que a Costa Rica aprontou para cima da Itália e da Inglaterra, que o México fez uma campanha semelhante à do Brasil, que o Chile pôs a Espanha na roda, que os EUA aprontaram para cima de Cristiano Ronaldo.

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Um time que entra em campo, num jogo decisivo, com um atacante chamado Immobile, não merece vencer.  Prefiro o cone do Fred no ataque.

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A Copa do Mundo, por enquanto, já abriu mão de seis dos dezenove títulos que ela própria distribuiu ao longo da história (quase um terço).  Outros cinco ainda podem ser despachados antecipadamente para casa, mas isso é improvável.  Convenhamos: o que são 84 anos de história e tradição perto de três míseros jogos disputados após menos de 20 dias de preparação, no fim de uma temporada, num país distante e sob forte calor?  Quem disse que “futebol é momento”, o fez com endosso da Fifa.

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One Comment

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  1. Vai por mim, o Immobile consegue ser melhor que o Fred. E o Fred ainda é melhor que o Jô. Quanto à Colômbia, que passeou em cima do Uruguai, esse garoto James Rodríguez é muito bom de bola!

    Para um cara chamado Immobile ser melhor que o Fred… Se mata.

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