Pesos e medidas

Recebi, não por escrito, mas pessoalmente, duras críticas sobre os meus louvores ao Luís Suárez.  Vi-me isolado na minha admiração.  Admiração, não aprovação.  Admiro a ousadia; é a cara do Uruguai – e tudo o que a Fifa e o futebol europeu mais odeiam; mas não aprovo.

A mordida, duvido tenha sido um ato impensado, rompante, instinto.  Foi maldade, premeditado, verdadeira agressão, desleal porque não feito de maneira que o Chiellini pudesse defender-se.  Merece punição sim, por parte das autoridades desportivas e por parte da organização do torneio – que, no caso da Copa do Mundo, confundem-se na mesma instituição: a Fifa.

Não vejo a menor diferença, porém, entre uma cotovelada num lance de disputa de bola, um pisão sobre um jogador caído após um lance de disputa de bola, uma inusitada mordida no ombro do adversário ou uma cusparada no rosto.  Todos esses atos são agressões desleais e antidesportivas, e merecem o mesmo tratamento, o mesmo rigor, a mesma punição.

Alicerçados esses conceitos, vamos às três considerações às quais se presta este post.

A primeira consideração é que, por não ver diferença entre cotoveladas, mordidas, cusparadas, chutes e pisões, por serem todos off-lance, off-futebol, a punição de Suárez deveria ser proporcional, senão idêntica, à de Mauro Tassotti, Leonardo, Zidane e outros agressores gratuitos de Copa do Mundo.  Foi um pouco mais dura (Tassotti pegou oito jogos de suspensão, Leonardo pegou cinco, Zidane pegou dois, e Suárez pegou nove), mas nisso não critico a pena.  Para pesos semelhantes, medidas semelhantes.

A segunda consideração é que não vejo razão para a punição de 4 meses de banimento das atividades relacionadas ao futebol.  Essa sanção pune o clube ao qual Luís Suárez serve, clube esse que Suárez não estava representando no momento da agressão.  Puni-lo com um gancho de quantas partidas fosse de jogos da sua seleção, sim, me parecia adequado.  Prejudicar o seu empregador, a liga à qual ele é filiado e os torcedores de seu clube me parece desmedido e covarde, soa quase que como uma vingança, como um pai que dá palmada tomado pela raiva, e não pela serenidade, o discernimento e a convicção de que essa é a medida adequada para a reeducação do filho.  Quisesse pesar a punição, melhor seria encarecer o valor da multa pecuniária.  Para pesos iguais, medidas diferentes.

A terceira e última consideração é que, ao menos na minha cadeia de valores, uma mordida no companheiro de profissão é infinitamente menos grave do que uma banana atirada ao campo ou uma imitação coletiva de gestos símios.  Uma mordida é uma agressão individualizada e aberta, que expõe o agressor até mesmo ao revide e não ofende nem diminui o que o agredido pensa a respeito de si próprio, não lhe diminui nem aos seus pares; atirar uma banana ao campo é covarde porque feita às escondidas, oculta pela multidão, e ofende o agredido e seus pares (companheiros de equipe e familiares) pelo que eles são e não podem deixar de ser, não pelo que eles fazem ou fizeram. Por que, então, Suárez é banido 4 meses do futebol e os clubes cujos torcedores atiram bananas em campo ou imitam macacos não o são?  Vamos juntos dormir com esse barulho, se a sua cadeia de valores for semelhante à minha.  Para pesos diferentes, medidas inversamente diferentes.

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Dar a Volta Olímpica (com “v” e “o” maiúsculos) em um estádio de futebol não é para todos.  Podem reparar: só os grandes feitos motivam uma Volta Olímpica.  Olímpica porque é o láureo maior, da conquista maior.  Dentre as dezesseis seleções que continuam no torneio, a única que comemorou o feito com Volta Olímpica foi a da Argélia – justamente a última a garantir a vaga.  Nem mesmo a Grécia, que também avançou ineditamente à segunda fase da Copa do Mundo, com pior campanha (4 pontos, 1 vitória e saldo negativo de 2 gols), e “dona” do Monte Olimpo, repetiu o gesto.  Nem mesmo a Costa Rica, que desbancou todos os prognósticos deu sua Volta Olímpica.  Os argelinos já ganharam a sua Copa do Mundo – e conquistaram a simpatia do mundo também.  Para pesos diferentes, medidas proporcionalmente diferentes.

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Se a Rússia quiser fazer alguma coisa significativa na próxima Copa do Mundo, sediada em seu território, é bom arrumar um goleiro melhorzinho…  Para quem já teve Lev Yashin e Rinat Dasayev no gol, esse goleirinho aí (cujo nome não merece sequer ser mencionado, tão ruim que é) é de chorar na rampa.  Pesos bem diferentes, medidas bem diferentes.

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Em todas as Copas do Mundo, os campeões têm seus dias ruins.  Às vezes perdem, às vezes empatam, às vezes ganham jogando mal, sem convencer.  Pense retrospectivamente e verão que a caminhada para o título nunca é um mar de rosas para nenhum campeão mundial.  E todos os grandes postulantes ao título que continuam na Copa do Mundo já tiveram seus dias ruins nesta primeira fase.  Brasil, Argentina, Uruguai, Alemanha, Holanda, Chile…  Pelo menos um sufoco já rolou para cada um.  Para quem todos os dias foram dias de sufoco, a Copa do Mundo já acabou.  Sinal de que a briga, daqui para frente, vai ser de foice.  Pesos iguais, medidas iguais.

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Numa chave, só a Argentina de campeã mundial contra sete coadjuvantes.  Na outra chave, quatro campeões mundiais, com doze dos dezenove títulos já distribuídos pela Fifa em campo, um em cada oitava-de-final.  No caminho para a final no Maracanã, a Argentina só tropeça nela mesma ou na Holanda.  Teremos uma revanche de 1978?  Estou esfregando as mãos para que sim.  Pesos diferentes com medidas diferentes quando gostaríamos de ver pesos iguais e medidas iguais.

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Para ser realmente grande no futebol, o cara tem que fazer bonito numa Copa do Mundo.  E não me venham com essa chorumela de que o time tem que ajudar.  Balela!  Não precisa vencer a Copa, tem que fazer bonito, tem que chamar a atenção, tem que causar impacto, medo no adversário, encantamento na plateia, independentemente do potencial de suas equipes.  Mattëus, Maradona, Beckenbauer, Charlton, Pelé, Zidane, Garrincha, Romário sem dúvida foram grandes, porque além de fazerem tudo isso ainda venceram suas Copas do Mundo, carregando seus times nas costas.  Outros que não venceram foram igualmente grandes: Milla, Cruyff, Platini, Suker, Fontaine, Forlán, Klose, e o próprio Suárez…  Cristiano Ronaldo não é nada disso.  Messi e Neymar também não.  Estes, ainda não.  Pesos iguais, medidas iguais.  A questão é saber qual é o peso de cada um.

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Terminamos a primeira fase com 136 gols, média de 2,83 gols por jogo.  Como se não bastasse, terminamos a primeira fase com futebol ofensivo, aguerrido, disputado e combativo – mesmo em jogos com poucos gols.  Desses gols todos, 39% saíram de tramas de ataque; 27% de jogadas de bola parada.  Os outros 34% saíram de jogadas oriundas diretamente de roubadas de bola, sendo 18% no campo de defesa e 16% no campo de ataque.  Sem pesos, só medidas.

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3 Comments

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  1. Belo post. Vale registrar que você, corretamente, excluiu a Galinha de Quintino da lista dos grandes das Copas. Parabéns, porque muitos urubus não ousariam fazer o mesmo.

    É isso, para virar uma Lenda (com letra maiúscula e tudo), o futebolista precisa fazer história em uma Copa (ou mais), de preferência com vitória. A história da seleção de 82 foi vergonhosa, e só é lembrada com mágoas pelos brasileiros e risos pelos italianos. E quanto à Copa de 86, nem vale lembrar do pênalti.

    Eu sabia que o seu anti-flamenguismo o faria notar a ausência proposital de Zico (e de qualquer jogador brasileiro da Copa de 1982) da lista. Acidental, porém, foi a ausência de Eusébio, que fez muito mais por Portugal na Copa de 1966 do que Cristiano Ronaldo nas suas três copas somadas.

  2. As melhores cronicas da Copa do Mundo!! Parábens!

    Uma baita surpresa saber que você tem paciência de ler tudo – e a gentileza de dizer que gosta. Coisa de amigo!

  3. Ótimo post, muito inspirado. Mas não concordo com sua análise sobre a punição do Suárez, como você já leu e também não vou repetir aqui. O que ele fez não pode acontecer, muito menos em uma Copa do Mundo. Não pode e pronto. E quanto à punição ao clube, é igual à pena de prisão, que também afeta a família do preso, que vai ficar sem ele. Ele está afastado do futebol, para todos os efeitos, por quatro meses, e da seleção em especial por nove jogos. E se isso prejudicar o clube, o clube que se resolva com ele, como já está acontecendo inclusive com o Barcelona, que quer rever as bases do contrato que estão negociando.

    Ainda acho que doer no bolso dele seria mais adequado.

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