Não há nada que um bom dia de surfe não cure

O que pode ser melhor para curar uma crise de abstinência do que uma overdose?

Há algum tempo – ok, não é “algum”, é “muito” –, a Redley vendia uma camiseta com o seguinte dizer nas costas: “Não há nada que um bom dia de surf não cure”. Nunca surfei mas, por causa daquela frase, carrego comigo a frustração de nunca ter surfado. Ainda hoje, não entendo a sua razão de ser, embora possa imaginar. A minha realidade é um pouco diferente. “Não há nada que uma boa disputa de pênaltis não cure”, estaria estampado na camisa que eu usaria hoje.

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Acertei o resultado do jogo do Brasil no bolão. Sozinho. Na hora que a Copa efetivamente começa, separam-se os garotos dos homens.

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O Brasil só jogou bem até tomar o gol. Depois, abateu-se, apequenou-se, sofreu. A melhor alternativa tática tentada durante o jogo foi a troca do Luiz Gustavo com o Marcelo. Quando Sampaoli percebeu que o jogo do Brasil passava pelos pés de Marcelo, colocou Pinilla para jogar aberto na direita e anulou o lateral brasileiro. Voltamos à mesmice, ao abatimento, à apatia, à falta de alternativas. Oscar e Neymar isolaram-se do restante do time e foram facilmente envolvidos pela marcação. Só Hulk, mais na base do fôlego que lhe sobrava do que por qualquer outro fator, era a única saída do Brasil para sair do sufoco e pressionar o time do Chile. O time, porém, não o acompanhava. No fim, o Brasil parecia um time médio africano: cada um por si e Deus por todos. Não fosse a trave…

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Se é verdade que todo time tem um dia ruim na Copa do Mundo, o Brasil é o maior candidato ao título, porque já teve dois. E que ninguém fique aí alarmando para o resto do planeta, como farão todos os comentaristas esportivos em todas as resenhas esportivas até o próximo jogo, profetizando o fim do mundo. Numa Copa do Mundo, cada jogo é uma história completamente diferente do outro. Quem não lembra dos perrengues de 1994? Quem não lembra daquela oitava-de-final contra a Bélgica em 2002 (até hoje não entendo o que o juiz marcou para anular o gol do Wilmots)? Quem não sabe (porque ninguém lembra, né?) do perrengue contra a Espanha em 1962? Quantos times já arrebentaram na primeira fase e se estreparam logo depois (Dinamáquinas da vida). Vamos parar com a bobeirinha. Já deveríamos ter aprendido que é possível jogar feio e ganhar. É uma questão de opção.

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Por causa do espírito de luta demonstrado, Hulk foi o melhor jogador brasileiro em campo durante os 120 minutos de jogo (mesmo com a falha que deu origem ao gol do Chile, para se ter uma ideia do baixo nível dos nossos jogadores). Tivesse convertido o pênalti, mesmo com as duas defesas de Júlio César, seria difícil tirar-lhe o título. Para quem fez dois jogos mais ou menos, foi uma excelente demonstração de superação.

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O jogo de hoje me fez lamentar, pela primeira vez, a decadência pessoal do Adriano. Essa era a Copa dele. Ver Fred e Jô lentos e perdidos no meio da marcação dos zagueiros chilenos é de chorar na rampa.

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Ver Neymar com o número dez nas costas pronto para cobrar um pênalti me fez perguntá-lo: “E aí? Quem é você? Você é um Zico ou ainda pretende ser um Romário?”. Ele converteu o pênalti. Cobrou acanhadamente, mais com medo de perder do que com vontade de fazer, mas a bola entrou.

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No fim, ficou com a baliza à direita das cabines de televisão o título de melhor jogador em campo. Entre onze cones de bermuda branca e camisa amarela, o cone inteiramente vestido de branco sobressaiu. Nas duas vezes que foi chamada a intervir no jogo, fez a diferença e definiu o resultado.

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Foi pênalti. O árbitro errou. Foi mão. A bola foi matada para lá da costura da manga da camisa. O árbitro acertou. Como a gente ganhou, deixa para lá. Nunca fui fã do Webb. Hoje tive certeza de estar do lado certo da força.

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Vou falar que o churrasco que eu fiz durante o primeiro tempo ficou um espetáculo! A galera aqui em casa se lambuzou no intervalo. A prática leva à perfeição.

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Muito chato esse Colômbia x Uruguai. Bati cabeça sinistramente durante o segundo tempo. Não gosto de times que não dão sopa para o azar, especialmente em jogos mata-mata. Também não gosto de times que não oferecem nenhum perigo em jogos mata-mata, exceto quando é o meu time que está do outro lado.

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Qual é o grau de ambição da Colômbia? Se for o mesmo que o do Chile, o Brasil já ganhou.

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Por que o Felipão não escala Fernandinho e Hernanes no meio no jogo que vem? Por que insistir em colocar o Ramirez em campo todo jogo se as melhores substituições feitas na Copa do Mundo até agora foram para colocar esses dois jogadores?

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A seleção brasileira precisa ir jogar em São Paulo! Vai encher o Cantareira só com as lágrimas. Eu não sou botafoguense! Não tô acostumado com chororô.  Isso não vai dar certo…

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James Rodriguez tem aquela doce irresponsabilidade dos garotos craques. Não tivesse fechado recentemente a sua transferência do Porto para o Mônaco, hoje à noite seria procurado pelo Real Madrid ou pelo Barcelona.

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Essa semana me perguntaram: “quem você prefere pegar nas quartas-de-final”. Eu não podia dizer que era a Fernanda Paes Leme. Respondi que era o Uruguai. Não me levaram a sério. Fui achincalhado, ao argumento de que o Uruguai seria um adversário muito mais difícil do que a Colômbia. Futebol é momento. História é estatística. A Costa Rica está aí para provar isso. O Ituano também.

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Se um dia de surfe é bom, imaginem quatro seguidos? Amanhã, segunda e terça-feira teremos mais seis jogos de oitavas-de-final, dois por dia. Alguns deles com boas chances de ir para os pênaltis. Eu estava começando a ficar resfriado, mas já passou.

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3 Comments

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  1. Não dá. Sinceramente não dá. Porra! Hulk? Melhor em campo? Vc pode até falar em mais esforçado, sei lá. Agora, melhor? O cara teve a falha bisonha que deu origem ao gol do Chile (e possivelmente sem essa falha o jogo teria terminado 1×0), sendo, pois, um dos maiores responsáveis pelo jogo ir para os pênaltis. Chega na hora de cobrar e o sujeito bate quase rasteiro no meio do gol e perde. Não fossem a trave e as cobranças em cima do Mão de Maionese, aquela cobrança poderia ter feito falta. Errou em dois lances capitais. Não é melhor do jogo em lugar nenhum.

    Não foi o melhor do jogo. Foi o melhor do Brasil em campo. Para você ver como o nível estava baixo…

    • E mesmo que vc fale só dos 120 minutos, descontando os pênaltis, só o fato de ter entregue o gol (único) para o adversário que impediu a vitória torna impossível declará-lo melhor em campo. Aliás, entregar gol pro adversário (especialmente para um atacante) só pode ser compensado com ao menos um gol para o lado certo.

      Não acho certo falar que o lance dele precipitou a decisão por pênaltis. Tivemos mais de 90 minutos de jogo depois disso. Tudo poderia ter acontecido se ele acertasse aquele lance: de uma goleada do Brasil a uma virada do Chile.

  2. A sua modéstia me comove. E o Real já procurou o James Rodríguez.

    Modesto? Eu? Você diz isso para todos…

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