Carol, separada

Foi quando ela ajeitou o cabelo, prendendo-o atrás da orelha, que eu percebi a aliança no quarto dedo da sua mão esquerda.  Ué, mas ela não havia se separado?  Há coisas que nem o Facebook conta.  Só mesmo as línguas ferinas.

Mas ela estava lá, de aliança no dedo, fazendo suas compras no supermercado.  Ostentava ainda para todos a falsa felicidade.  Assim, se sentia melhor, mais completa, realizada.  O receio de que lhe perguntassem o que aconteceu a fazia agir dessa maneira.  Preferia a aparência do sucesso na vida sentimental a relembrar os motivos que a levaram à separação.  Explicaria o que?  Falaria o que?  Contaria tudo?  Que partes da história revelaria?

A vergonha de tudo o que passara era muito mais forte.  As compras no carrinho, porém, não mentiam: umas poucas frutas, pequenos itens de limpeza doméstica, duas cervejas, latinhas de refrigerante, uma pizza congelada, uma pipoca, um litro de leite, algumas pequenas guloseimas para enfrentar aqueles dias mais tormentosos e um pequeno ornamento doméstico para mudar o visual da estante da sala.

O rosto ainda estava apático, mais magro que o que eu havia conhecido há alguns anos.  Mais séria, mais branca, cabelos mais longos.  A roupa ajudava a compor o figurino “mulher de sucesso”.  Fachada.  Quem a conhecia sabia que, ao menor sinal de severidade, a maquiagem se desmancharia num reservado de banheiro.  A dor do seu novo status social corroía-lhe muito mais do que as agruras que a levaram a ele.

Pensara em sumir, desaparecer, tirar férias, viajar.  Desistira, porém.  Viajar sozinha só evidenciaria o que ela queria esconder.  Melhor seguir a vida normal, deixar as coisas serenarem, absorver o golpe.  Com o tempo, sempre o tempo, tudo se encaixaria.  Quem sabe ela até conseguisse aceitar a separação?   Quem sabe ela encontrasse uma boa história para justificar o que, ainda ali, parecia injustificável, inexplicável?  Justo ela que sempre se orgulhara dos quase quarenta e cinco anos de casados dos pais, ainda felizes e unidos…

Não fora por falta de tentativas.  Ela ainda se martelava.  Onde teria falhado?  Fizera de tudo para dar felicidade ao novo lar.  Cedera em tudo o que lhe parecia possível – e até em coisas que durante toda sua vida relutara fazer, e que agora só faziam aumentar seu sentimento de culpa e vergonha – em nome da felicidade do seu escolhido.  Lembrava-se ainda das viagens que fizeram enquanto ainda eram namorados, das festas que foram, das risadas que deram, registradas nas fotos que ainda estavam penduradas nas paredes do apartamento.

A cada noite, porém, ao deitar-se sozinha na cama, olhava para sua mão esquerda, tirava a aliança do dedo, beijava-a e punha ao lado do par que recebera no último dia em que se viram, há três meses, no mesmo restaurante em que ele lhas apresentara.  Ao mesmo tempo em que escorriam-lhe as lágrimas, pedia a si mesma força para, no dia seguinte, ter coragem de não mais usá-las.

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3 Comments

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  1. #ForçaCarol

    Ela vai superar.

  2. Vai escrever contos agora?

    Já escrevo tem um tempo… Você anda desatualizada.

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