Prêmio de consolação

Certa vez mencionei que gosto de colecionar camisas de seleções e clubes dos lugares para onde viajo.  Ponho nelas sempre o meu nome, não os nomes dos jogadores.  Desde que o Luís Figo mudou do Barcelona para o Real Madrid quinze dias depois de eu comprar a camisa do Barcelona, tomei a decisão de não fazer isso.  Por sorte, eu não pus seu nome naquela camisa.  Raro caso de aprendizado com o acerto, não com o erro.

Por isso, quando eu cheguei na loja do Santiago Bernabéu, no fim da visita estádio, eu não tive dúvidas.  Aproximei-me do balcão e perguntei ao rapaz que, com um sorriso, se dispusera a me atender:

– Qual era o número da camisa de Di Stéfano?
– Número 9.
– Então eu quero uma camisa com número 9 nas costas e o meu nome, por favor.

Santiago Bernabéu
Didi, Di Stéfano e Puskas

Durante a visita toda eu procurara os rastros de quatro ícones que já haviam vestido a camisa do Real Madrid.  Três deles encontrei na mesma fotografia, juntos, um ao lado do outro: Didi, Di Stéfano e Puskas (tirei até uma foto da foto).  Os três maiores jogadores da época no planeta.  Eu não fazia ideia de que esse encontro – literalmente – galático ocorrera.  E fiquei com uma baita inveja de não ter visto os três atuando juntos.  Esse Real Madrid devia ser mesmo uma máquina de derrotar adversários.  Um verdadeiro esculacho – se é que essa palavra existe no espanhol.

Di Stéfano era uma lenda que para mim sempre foi muito curiosa.  Esses jogadores da época romântica do futebol são todos muito fascinantes.  Gente que eu nunca vi jogar, nem em videotape, como pode?

Isso pouco importa.  Di Stéfano estava por todos os lugares.  Natural: ele é algo como Zizinho ou Zico foram para o Flamengo; Roberto Dinamite foi para o Vasco; Eusébio para o Benfica; Bobby Charlton para o Manchester United.  Dos demais, exceto os ídolos mais recentes, como Raúl, Ronaldo, Roberto Carlos e Hierro, não se falava tanto.

– Desculpe, mas não temos o número 9.
– Vocês têm o 6?
– Temos sim.
– Então coloque o 6 de cabeça para baixo, por favor.
– Lamento, mas não ficará bom, porque o símbolo do clube que há no número ficará de cabeça para baixo.

Não seria dessa vez que eu teria uma camisa do Di Stéfano.  Restava-me apenas a consolação de ter que escolher outro número.  Mas qual?  De quem?  Na ausência de Di Stéfano, quem seria o maior de todos?  Critérios mudados, pensamento rápido, escolhi a 7, de Raúl – na minha opinião o atacante mais completo que vi jogar.  Podia não ser tão espetacular quanto Romário, tão incisivo quanto Ronaldo, tão criativo quanto Júnior, tão eficiente quanto Rivaldo, mas era o único que fazia tudo em campo, de cobrança de faltas a cabeceios, de arrancadas a finalizações.  E não pus o meu nome nela.  Fiquei só com o número 7 nas costas mesmo.

A notícia da morte de Di Stéfano, hoje, me deu vontade de voltar a Madrid, para comprar uma nova camisa do Real, desta vez, sim, com o número 9 nas costas.  E o meu nome, claro.

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One Comment

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  1. Eu também queria ter visto Di Stéfano jogar. É uma notícia muito triste para o futebol.

    Não só ele.

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