Centenário

Quando eu entrei na igreja e a vi sentada numa cadeira no centro do corredor, lá na frente, fiquei satisfeito.  Dois meses antes, quando eu fora convidado para aquela cerimônia, pensei: “tomara que não tenha que ser cancelada“.  Dois meses, para quem já viveu 99 anos e 10 meses, são muita coisa.  Ainda mais para quem, nesse meio tempo teve dois cânceres (tendo se recusado a fazer o tratamento quimioterápico após a cirurgia) e diversas outras tribulações.  Ela que, durante tanto tempo da vida, dedicara sua força para tratar dos doentes.

Entrei, silencioso.  Ansiedade?  Já não mais a tinha.  Suspirei.  Aproximei-me e a vi séria, sendo cumprimentada – quase reverenciada – por cada convidado que chegava.  Parecia a “poderosa chefona”, sentada ali em posição de destaque.  Não parecia nem um pouco a Tia alegre de outras vezes, falando alto e gesticulando, brincalhona e sorridente.  Sua insuficiência cardíaca não mais lhe permitia andarilhar pela igreja cumprimentando seus convidados.  Ficou, pois, sentada ali mesmo.  Pés para o alto, sobre o ginuflexor, perdoada por essa delinquência.

Saquei a câmera e tirei algumas fotos.  Acho que ela ainda não havia percebido a minha presença ali.  Estava bonita como eu nunca a vira.  Cabelo feito, roupa alinhada, preparada para aquela solenidade, a se realizar na mesma igreja que ela se casara, sabe-se lá quantos anos antes.  Quando eu nasci, ela já era velha (quase 65 anos) e sempre usara o mesmo cabelo, preso atrás da cabeça, formando um coque.  Pela primeira vez, eu a via penteada.

Aproximei-me e disse: “tá lindona…”  Ela, finalmente, reparou na minha presença.  Além da distração provocada pelas solicitações, estava um pouco embasbacada olhando para o nada, possivelmente lembrando tudo o que testemunhara nos últimos cem anos.  Copa do Mundo, iluminação pública elétrica, televisão, asfalto, bonde elétrico, penicilina…  Nada disso existia no mundo que ela nasceu.  Nasceu no mesmo ano que Dorival Caymmi, Lupicínio Rodrigues, Guerra-Peixe e Carlos Lacerda.  A Primeira Guerra Mundial havia começado formalmente três dias antes, Venceslau Braz era o Presidente do Brasil, Alexander Graham Bell e Santos Dumont ainda estavam vivos, a mãe de Pinochet não estava sequer grávida, São Pio X era o papa – ele, cuja imagem adorna o primeiro altar lateral esquerdo daquela mesma igreja.

Permaneceu séria.  Emocionada, eu acho.  Não esboçava sorriso algum, para não dar margem às lágrimas.  Eu precisava de um sorriso para tirar a foto perfeita.  Um sorriso espontâneo, aquele sorriso a que eu me acostumara ver em sua face desde que eu nascera.  Recorri, então, à predileção dela e de sua melhor amiga, a minha avó.  Algo que, mais do que o significado literal, eu sabia que despertaria nela o sentimento de felicidade que eu queria retratar.  Baixinho, ao pé de seu ouvido, perguntei: “onde é que a gente vai tomar um chopp quando isso aqui acabar?

Anúncios

One Comment

Add yours →

  1. Cara, imagina a emoção que é completar cem anos de idade com a mente lúcida! E ela vem vivendo esse cem anos justamente no período em que aconteceram mais coisas na História do que nos cem milhões de anos anteriores!

    Ela só não testemunhou o fim dos dinossauros e a vinda de Jesus à Terra. O resto, ela testemunhou tudo.

Você quer comentar? Clique aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: