De papudo

Ser criança é ter a liberdade para sessões intermináveis de bobeiras inocentes e adoráveis; é rir das coisas mais idiotas que existem – como passar horas chamando a Filomena de “Dicozó!” e gargalhar da própria piada até tossir ou se engasgar; é brincar com as palavras mesmo que não se tenha a menor ideia do seu significado.

Eu nunca havia entendido a razão pela qual se respondia “presente!” à chamada.  Passei anos e anos na esperança de que um dia a minha mãe fosse me permitir, enfim, dar um presente à professora naquela hora.  Talvez fosse essa a função daquelas maçãs que os alunos davam aos professores na televisão.  Talvez fosse o fato de eu estar ali o presente (a minha presença é um presente, eu nunca fui muito modesto mesmo).  Um dia eu descobri que, além da palavra “presente”, havia também a palavra “ausente”.  Diferente, né?  Legal também.  Sem saber o que significava “presente”, seria impossível saber o que significava “ausente”.  Mas ela tinha uma sonoridade legal…  Por que não usar?  Na primeira chamada que se seguiu, na aula de natação, quando o professor chamou: “Leandro!” eu respondi “Ausente!“.  “Pode ir embora.  Se é para ficar de gracinha com a minha cara, pode ir. Eu já marquei falta aqui para você.”  E seguiu-se um sermão interminável sobre a minha ausência – que, enfim, me explicou que o tal “presente” vinha de presença, não de uma oferenda gratuita; e que o “ausente” não era só uma variação bonitinha e engraçada do “presente”.  Não fosse o fato de ser aula de natação, eu teria saído dali bastante triste.

Agora eu vejo a Felícia usando palavras novas a cada dia, experimentando, acertando na maioria das vezes, errando adoravelmente em algumas…  Ou alguém acha que ela realmente sabe o que é “canhotinha“?  Vai demorar até descobrir.

A mais recente palavra adicionada ao seu vocabulário é a gíria “papudo” – que, aviso com pesar aos nostálgicos, não tem nada a ver com o Papai Papudo, célebre personagem de Gilberto Fernandes no Programa do Bozo.  Eu realmente não havia ainda reparado na seriedade da brincadeira até que a minha irmã, neste  fim de semana, resolveu me perguntar o que signficava “estar de papudo”.  Sim, porque, segundo a Felícia, ela estava “de papudo”.  Parei e pensei na pergunta detidamente: o que teria passado na cabeça da minha irmã ao ouvir aquilo?  Que ela tem papo?  Que ela está parecida com o Papai Papudo?  Quis rir, mas achei melhor responder o que eu achava que isso significava, embora tivesse certeza da imprecisão da resposta.

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2 Comments

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  1. Verdade! Ela tem falado muito essa palavra e ri logo a seguir. Que será que significa pra ela???
    Mistérioooo!

    Não só ela, como vários outros amigos de turma.

  2. Vou parar de ler este blog. Você acabou com a minha fantasia, sempre achei que “papudo” tinha a ver justamente com o Papai Papudo, poxa!

    Em tempo: “papudo” é aquele que gosta de contar vantagem (Fonte: Dicionário Informal: http://www.dicionarioinformal.com.br/papudo/)

    Agora explique o uso do “papudo” como substantivo, ex vi: “suco de papudo”.

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