No ônibus ao telefone

– Oi! …  Tudo bem?  Não tá nada bem!  Eu já estou há meia hora nesse maldito ônibus e sabe onde eu estou?  Na Central! …  Isso mesmo que você ouviu: eu-ainda-estou-na-Cen-tral! Nunca mais me peça para andar de ônibus, entendeu?  Nunca mais! … Não mãe, não.  Eu consegui resolver tudo, sem problemas.  Só não sei a hora que eu vou chegar em casa por causa desse maldito ônibus lerdo para cacete.  Maldita hora em que eu fui ouvir você e pegar o ônibus para voltar para casa. … E se demorou meia hora para chegar na Central, você acha que vai demorar quanto tempo para chegar no Méier?  Só vou chegar amanhã, né?  Alôu…! …  Ah, mãe, tá bom, eu acredito.  Em casa a gente conversa. … Tá, mãe, tá.  Tchau.

– Fala!  Tudo bem?  …  Tudo bem uma ova.  Sabe onde eu estou? …  Não, isso eu já resolvi.  Eu tô na Central, cara.  Manja?  Central! …  Não, nada disso.  Tô num maldito ônibus na Central, voltando para casa.  Só que o ônibus demorou meia hora para vir de lá até aqui.  Que horas eu vou chegar em casa? …  Pois é, se ele tivesse vindo de carro comigo, eu já estaria em casa, não estaria suada, melequenta… …  Pois é! …  Exatamente.  …  É aquilo que a gente já tinha conversado, né?, amiga.  Quem quer, corre atrás.  Depois vai ficar chorando querendo saber o que fez de errado, pedindo para voltar… …  Isso. … Então tá, era só para desabafar mesmo.  A gente se fala mais tarde. …  Até mais.

– Oi, Dinda.  Você me ligou? …  Eu tava no telefone falando com uma amiga, mas pode falar agora. …  Não, Dinda, eu tô num ônibus… Ai, você não vai acreditar!  Eu tô num ônibus voltando para casa, só que eu já estou há meia hora sentada nesse inferno e ainda tô na Central.  Dá para acreditar?  …  Ninguém merece, né? …  Culpa da minha mãe, que disse que era melhor voltar de ônibus.  Antes eu tivesse pego o metrô. … Pois é, eu também acho, mas agora eu tô aqui derretendo nesse calor infernal porque nem ar condicionado tem. …  Deixa para lá.  Você ligou para falar alguma coisa, diga. …  Não, tá tudo bem.  Não era nada demais não.  …  Então tá.  Manda um beijo para o Dindo.  Tô com saudades.  …  Beijo, tchau.

– Oi…  …  Não tá nada bem, não.  …  Adivinha porque?  Adivinha? …  Ah, não faz a menor ideia…  Então eu vou ajudar você a se lembrar.  Sabe onde eu estou neste exato momento?  Eu tô morta de calor num inferno de ônibus que não anda há meia hora.  Sabe por que?  …  Ah, agora você tá lembrando, né?  Pois é…  …  Pois é…  Depois você reclama que eu brigo com você sem razão.  Se você tivesse largado essa droga desse trabalho que você odeia para me trazer e me buscar, eu não estaria chateada.  …  Dá teu jeito!  Quando você quer, você faz.  …  Não, eu não quero ouvir.  Eu não entendo.  Eu não entendo.  Entendeu?  Esquece!  Agora esquece! …  Deixa eu falar!  Deixa eu falar!  Presta atenção: eu odeio andar de ônibus.  Você ouviu?  Odeio!  E por sua causa eu tô aqui pastando a meia hora num calor dos infernos, num trânsito que não acaba, e sei lá que horas eu vou chegar no Méier. …  Ah é?  Então tá!  Vai esperando!  Tchau!

Foi essa menina que me inspirou a escrever aquele post sobre a incompatibilidade entre mulheres e ônibus.

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2 Comments

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  1. Ah, manda ela deixar de viadagem. Ir pro Méier é mole, vai pra Ilha de ônibus que eu quero ver.

    Eu pensei em Campo Grande, Bangu… Mas tá bom: aceito o desafio da Ilha para ela.

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