Sobre o prazer de assobiar

Quando eu descobri que o correto era “assobiar”, e não “assuviar”, eu já sabia assobiar.  Não que eu tenha começado cedo.  Nada disso.  Na verdade, eu aprendi o certo tarde.  Assim como também só aprendi burro velho (com uns 8 anos, para ser mais ilustrativo) que o correto era dizer losango, e não losângulo.  Até hoje ainda me pego com dificuldades entre “asterisco” e “asterístico”, e me sinto como aqueles velhos que falam tauba, ao invés de tábua.  Enfim, mas não é por causa das minhas dificuldades e carências linguísticas que eu resolvi escrever este post.

E desde que aprendi a assobiar, não mais parei.  Assobio o tempo todo, em todo lugar, geralmente melodias musicais.  Gosto de verdade, e pratico muito, mais até do que deveria.

Assobio inconscientemente, muitas vezes, absolutamente alheio às repercussões que um assobio pode gerar no ambiente ao meu redor.  Assobio no ônibus, no carro, na rua, no metrô, no trabalho, na missa…  Assobio para chamar as pessoas – no ambiente familiar, uma melodia específica serve quase que como um ThunderCat-Ho!!!, basta assobiá-la que todos já entendem o chamado.  Essa mesma melodia serve tanto para chamar a Filó quanto a Felícia e a Fiona, minha irmã, meu pai, minha mãe…  Não é à toa que, quando a Felícia nasceu e me foi apresentada pelo pediatra, ainda na sala de parto, a primeira coisa que ela ouviu de mim foi esse assobio – para ficar esperta e já se habituar.  Quando Fergus nascer, não vai ser diferente.

Assobiar assim já me livrou de algumas encrencas.  Como, sem celular, encontrar alguém num lugar desconhecido?  Gritar?  Correr?  Procurar?  Assobie e pronto.  A outra pessoa ouve e vocês se encontram.

Eu já me meti em algumas encrencas também, por assobiar.  Como ao chamar a balconista de uma companhia aérea na hora check-in…  Ela fechou o tempo e me passou um sabão interminável, dizendo que no país dela isso era uma forma muito pouco polida de ofender outra pessoa.  Insinuou que eu a havia chamado de cadela, com isso – e não foi nada disso.  Adiantava explicar?  Não adiantava.

Essa semana me peguei assobiando alto, enquanto dirigia.  Lembrei dos pedreiros que faziam obra na casa do meu pai.  Trabalhavam o dia inteiro assobiando músicas ininteligíveis.  Algumas vezes perguntei que músicas eram aquelas.  Eles responderam que era lá da terra deles, Itaperuna, dando a entender que eu jamais saberia do que se tratava.  A curiosidade ficou.  Acho que eram melodias aleatórias, mais parecidas com imitações malsucedidas de cantos de pássaros do que músicas de verdade.

E, ao me pegar assobiando, resolvi escrever sobre o prazer de assobiar.

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2 Comments

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  1. Está no sangue. Pergunte a seu pai quem assobiava o dia inteiro na janela vendo a vida passar.

    Eu sei.

  2. Assoviar (pra mim é com “v”) é uma manifestação que tem se perdido, não acha? Tenho visto tão poucas pessoas assoviando ultimamente.

    Realmente muito mais raro que antigamente. IPods e fones de ouvido estão extinguindo o hábito.

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