Vento no rosto

No vento vem o cheiro, no vento vem a velocidade, e quanto mais velocidade, mais vento.  Sem o vento, não há ar, não há barulho, não há prazer.  Como se pode, então, preferir fechar a janela, se é do vento que tudo vem?

Se é por conforto, que conforto maior há que a brisa?  Se é por causa do barulho, por que então sair de casa?  Se é por segurança, que me desculpem os desantenados, não é uma lâmina de vidro temperado que vai dar mais proteção – não no Rio de Janeiro.

Ninguém mais me entende.  É automático, é obrigatório, é imperceptível.  Para que, então, janelas que se abrem?  Para pegar panfletos em sinais de trânsito?  Para pegar bilhetes de cancelas de estacionamento?  Para pagar pedágios manualmente?

O prazer de sentir o vento no rosto, circulando pelo interior do carro, com o barulho zunindo no ouvido, despenteando o cabelo que já não se tem na cabeça…  O prazer de andar de carro com a janela aberta já não se tem mais.  Perdeu-se.  Não importa a temperatura lá fora, não importa a paisagem – vemos e sentimos o mundo, agora, sempre na mesma temperatura, atrás da mesma película aplicada ao vidro.  E que se dane se há janelas automatizadas!  Para que, então, automatizar janelas se não lhes abrimos?

Eu quero viajar pelo mundo sentindo o cheiro das coisas – da fumaça do caminhão ao perfume de uma árvore cheirosa numa esquina qualquer.  Sentir o sol arder em meu ombro, suar de calor sob o cinto de segurança até o limite do impraticável.  Quero ouvir cada barulho, cada buzina de moto, cada disparo de freio a ar de ônibus.  Quero poder dizer que o meu carro faz tantos quilômetros por litro de combustível com ar condicionado ligado e outros tantos sem o ar condicionado ligado – essas referências desapareceram.

Ainda resta prazer em dirigir de janelas abertas.  E eu resisto a exercer esse direito.

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One Comment

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  1. Janela aberta, aberta mesmo, até o fim? Não, obrigado. No máximo um dedo de fresta, quando não está muito calor, e olhe lá.

    Janela aberta mesmo, vento batendo no suvaco.

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