Reminiscências

Quando o Márcio Santos perdeu aquele pênalti, eu temi pelo pior.  Vi novamente passar na minha cabeça o filme de 1986, Zico perdendo o pênalti, o Brasil sendo eliminado de mais uma Copa do Mundo.  1970 era longe demais.  Eu jamais teria a chance de ver o Brasil campeão do mundo, como meu avô e meu pai haviam visto – três vezes.  Não fosse o avô do Bruno, meu vizinho, se erguer do sofá e pedir calma a todos porque o jogo ainda estava empatado, talvez eu tivesse me descabelado, talvez não assistisse mais nada, talvez até tivesse um troço.

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De derrota eu já estava craque.  Sabia exatamente como se perdia, no campo ou nos pênaltis.  Excetuando os Campeonatos Brasileiros de 1987 – do qual tenho parcas lembranças, a única realmente viva era a de Taffarel levando uma coronhada do Bebeto no lance do gol e o jogo parado vários minutos, enquanto todos comemoravam efusivamente – e de 1992 – que não vi os jogos finais porque estava viajando, numa época em que a comunicação internacional era algo quase jamesbondiano -, a minha vida futebolística era só derrota.  Os estaduais vencidos por Romário – com direito a lençol no goleiro do Flamengo – e as derrotas da Seleção em 1986, 1988, 1990 e 1992 haviam me ensinado o roteiro depressivo da derrota.  E eu não queria passar por aquilo novamente, sem saber quando o ciclo iria terminar.

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Quando o Taffarel pegou o pênalti do Massaro eu fiquei ainda mais tenso.  Perder àquela altura do campeonato – literalmente falando – seria demais.  Talvez eu desistisse do futebol; talvez eu desistisse da Seleção; talvez eu desistisse da vida.  O avô do Bruno, novamente, chamou todos à serenidade naquela sala.  Não havia nada ganho ainda.  É incrível como o torcedor acredita piamente que o seu comportamento, quilômetros distante do local da partida, pode efetivamente influenciar o resultado do jogo.  Silêncio novamente na sala, era hora de Dunga cobrar.  Não poderia haver pior escolha para o cobrador daquele pênalti?  O botinudo do Dunga?

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Enfim chegou a hora da decisão.  O pênalti que pode decidir uma partida é diferente.  O pênalti que pode decidir um campeonato é bastante diferente.  O pênalti que pode decidir uma Copa do Mundo…  Esse ninguém nunca havia visto.  Pois bem, chegara a hora.  Pior do que depender daquele pênalti seria depender do pênalti a ser cobrado pelo Bebeto, pipoqueiro mascarado que havia jogado fora o título do La Coruña ao não cobrar um pênalti na última rodada do campeonato alguns dias antes.  O título tinha que ser decidido ali – do contrário, estaríamos em maus lençóis.  Coloquei-me perto da porta de saída.  Eu queria ser o primeiro a chegar na rua para comemorar.

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Eu só fui entender a história do “É Tetra!!!” muitos anos depois, quando a internet, popularizada, me apresentou o vídeo.  Na hora, mesmo, não vi nada.  Saí correndo errante para a rua.  Se o juiz mandasse voltar aquele pênalti, eu só saberia no dia seguinte, possivelmente.  Ninguém me alcançaria.  Ninguém me alcançou.  Embora eu não fizesse a menor ideia do que fazer na comemoração.  Eu queria apenas correr, correr e abraçar alguém.  Enfim eu vira o Brasil campeão do mundo.

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Quando eu cheguei na rua não havia rigorosamente ninguém.  Olhei para a cabeceira da rua e vi um ônibus da linha 673 apontando na minha direção.  Que louco estava trabalhando, dirigindo um ônibus, numa hora daquelas?  Não havia passageiros, não havia ninguém na rua, para que ônibus?  Fiquei parado no meio da rua.  Eu tinha certeza de que podia fazê-lo parar.  Naquele momento, eu era mais poderoso do que o garoto do Massacre da Praça da Paz Celestial.  De fato, o motorista freou o ônibus e parou, pasmo.  Ele percebeu do que se tratava: “ganhamos?”  E, abraçando o pará-choque do ônibus, na altura do farol esquerdo, eu respondi: “ganhamos!“.  Só depois e que chegou mais gente na rua para comemorar.

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One Comment

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  1. Engraçado como um post traz de repente memórias que estavam quase esquecidas… o desespero do chute do Mauro Silva que o Pagliucca quase aceitou (e depois foi beijar a trave), o chute do Romário que tirou tinta da trave (eu ainda acho que se passar outro replay a bola entra) e, depois, a cobrança de pênaltis. Foi a primeira vez que eu achei que fosse morrer. Depois saí de carro, sem saber para onde ir, segurando uma bandeira do Brasil com a mão esquerda e tentando dirigir usando só a direita.

    E aquele chute do Massaro no segundo tempo, que o Taffarel defendeu. Ali eu quase morri.

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