Golaço

O meu time já havia estabelecido um placar confortável de 2×0 no primeiro tempo.  Não fora nada fácil.  Não fosse o nosso goleiro improvisado defender tudo e mais um pouco, teríamos saído para o intervalo com pelo menos cinco gols sofridos.  Não fosse ele também, eu teria sido o melhor jogador do primeiro tempo.

O primeiro gol surgira de uma jogada nada ensaiada.  Eu, atacante de área, estava ofuscado pela marcação de um negão mais largo do que alto, contra quem eu não teria nenhuma chance na disputa mano-a-mano do interior da área.  Tentei fugir dele algumas vezes, afastei-me demais do gol, e o goleiro – era o César, da seleção brasileira de futebol de areia, não era qualquer um – acabou interceptando todas as tentativas de contato do meio-campo comigo.  Quando percebi que o time subiu demais para o ataque e deixou a defesa desguarnecida, saí discretamente da área e fui lá para trás, ajudar o balanço defensivo.  O zagueiro veio atrás de mim, sem perceber que deixara um rombo entre os laterais.  O meia-esquerda do meu time penetrou na área, recebeu a bola rente à linha de fundo, fingiu que ia cruzá-la e chutou para o gol.

O segundo gol foi consequência de um contrataque bem executado.  Bola roubada na zaga, aberta na direita, cruzamento rasteiro, perfeito, em diagonal, longe do goleiro, na minha direção.  Eu corria no segundo pau, tentando ultrapassar o zagueirão que continuava a me perseguir implacavelmente após o primeiro gol.  Posicionei o corpo, era encostar o pé de chapa na bola e correr para o abraço.  Que frustração!  O zagueiro se antecipou e cortou meu barato.  Empurrou a bola contra o próprio gol.

No intervalo, conversas táticas.  O nosso goleiro voltaria à sua posição de origem, o ataque?  E eu?  Jogaria onde?  Consenso: uma mudança drástica na forma de jogar.  Nossos meias de armação estavam cansados e jogariam nas laterais, com menor exigência de movimentação.  O goleiro estava bem descansado jogaria no meio-de-campo, chegando ao ataque para me ajudar sempre que possível.  Eu teria a liberdade de, recebendo o contrataque, partir para definir a jogada sozinho quando bem entendesse.  O goleiro, agora, não era nada confiável…

Assim recomeçamos a partida.  O entrosamento com o ex-goleiro foi rápido e perfeito.  Envolvemos o time adversário duas vezes mas o gol não saiu.  Na terceira, ele armou a jogada e rolou na ponta direita para um novo cruzamento, novo gol contra, idêntico ao anterior.  No lance seguinte, o nosso ex-goleiro resolveu tudo sozinho.  Recebeu, passou por entre os defensores, deu mais um corte e bateu de bico na saída do goleiro.  Mais do que o 4×0 no placar, a facilidade com que esses dois gols foram produzidos já estava fazendo a pelada ficar chata até para o time que estava vencendo.  E é nessas horas que as coisas acontecem.

Mudaram o time, trocaram um jogador por outro, e a pelada recomeçou, com um ar de 0x0 – embora isso fosse meramente psicológico.  O placar geral continuava assinalado na súmula oficial da partida.  E o time adversário se encheu de empáfia e coragem.  Partiu para o ataque e fez 1, 2, 3 gols.  Reduziu a vantagem, nos fez acordar para o jogo.  Eu mal tocara na bola nos minutos anteriores – o que, para um homem de área, não significa nada.

Em peladas, gols costumam ser produzidos em jogadas simples ou lances bisonhos.  Qualquer coisa mais ou menos bonita já se considera um golaço.  Num lugar onde ninguém é profissional, a beleza está nas pequenas coisas.  Raramente se produzem lances realmente dignos de serem lembrados por anos a fio.  Quando surgem, são lembrados por anos a fio.  Toda pelada tem aquele “você lembra daquele golaço que o Fulano fez aquele dia?”  Bem, “aquele dia” pode já ter cinco anos.  Naquele dia, o golaço era a cabeçada indefensável que eu havia colocado no ângulo do goleiro na pelada anterior.  Não fora nada demais, na minha opinião.  Um cruzamento forte, uma cabeçada seca certeira no primeiro pau, bola no travessão que quicou dentro do gol.  Naquele dia, até ali, o golaço era o do ex-goleiro.  Até ali.

O próprio ex-goleiro recebeu de mim uma bola para armar a jogada.  Ele debochou da marcação.  Virou para um lado e deu o passe para o outro, em direção à linha de fundo, para o lateral que o ultrapassava.  Parecia jogada de profissional.  Eu estava me posicionando dentro da área e passei um pouco do ponto ideal para a conclusão da jogada.  Fiquei muito perto do gol, muito perto do goleiro.  O lateral direito adversário fechou a marcação e tomou conta do espaço.  Eu precisava me reposicionar e tinha que ser rápido.  Dei meia volta, virando de costas para o lance, girando ao redor do lateral direito adversário que olhava a bola ao invés de me marcar.  Continuando o giro, saí um pouco da pequena área e, quando terminei, no ponto exato onde eu queria estar, na risca da pequena área e a uma distância confortável do meu marcador, olhei novamente para o lance.  O meu lateral esquerdo já havia recebido a bola na linha de fundo e cruzado.  A bola já estava no ar, viajando em minha direção, macia, apetitosa, num arco perfeito.  O goleiro correndo desesperado do primeiro pau para o centro do gol, o lateral direito atônito me procurando, o meu zagueiro gritou: “faz!“…  Tudo isso eu vi acontecer naquela fração de segundo, ao mesmo tempo em que, aproveitando a energia da corrida eu saltava para interceptar a bola.  Olho aberto, corpo reto, queixo no peito, cabeçada certeira, para baixo, quincando no chão antes de cruzar a linha do gol, no contrapé do goleiro.

Golaço!

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3 Comments

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  1. Verdade ou ficção?

    A mais pura verdade.

  2. Falar mais o quê? Golaço! 🙂

    E olha que você nem viu…

  3. Vai passar no GE10?

    Deveria.

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