7 propostas para um futebol melhor

A gente vive se queixando da chatice do futebol de hoje.  Não tem emoção, não tem qualidade, não tem ídolos, não tem craques…  O que fazer para mudar isso?  Ficar só com saudades dos tempos que já se foram e não retornam não é suficiente.  Algo há que ser feito.  Por isso, como um surdo-mudo que clama no deserto, uso este post para jogar no ar algumas ideias que podem contribuir para a melhoria do espetáculo.

1. Mata-Mata: todo jogo tem que valer alguma coisa.  Pode não ser o campeonato todo, mas pelo menos uma parte relevante dele tem que ser composta por jogos que dão frio na barriga do torcedor, do técnico, do jogador, do dirigente.  Essa história de que o melhor time tem que ser campeão é para outros esportes.  No futebol não é assim.  O melhor time é aquele que vence os jogos importantes, decisivos, que tem melhor preparo psicológico para jogar a favor de sua torcida ou contra a torcida adversária.  E, para não deixarem todos órfãos precocemente, com a eliminação, poderíamos propor uma fórmula de disputa que envolvesse todos os times no mata-mata: parte deles brigando pelo título e a outra parte brigando contra o rebaixamento.  A luta contra o rebaixamento poderia ser apimentada com outro mata-mata contra times da segunda divisão que buscam o acesso.  Por exemplo: dos vinte times da Série A, doze participariam do mata-mata pelo título e oito brigariam contra o rebaixamento.  Desses oito, os quatro que perdessem fariam mais um mata-mata contra o terceiro-ao-sexto da divisão inferior, com nova rodada entre os perdedores para definir quem finalmente ficaria na divisão de baixo.  Algo a ser elaborado.  Fato é que, no Brasil, só se vê estádio cheio e altas taxas de transmissão televisiva em jogos decisivos, onde o elemento “emoção”, que contorna o espetáculo, tem presença relevante.  Do jeito que está, com times jogando pelo empate ou até aceitando uma derrota ou outra (chamando isso de “queima de gordura”), não dá.

2. Mudança no sistema de pontuação: dane-se que o mundo inteiro trabalha com três pontos para a vitória e um ponto para o empate.  O sistema proposto pelo Marcio há mais de dez anos é muito mais maneiro.  A ideia é valorizar a busca pelo gol e pela emoção do espetáculo, durante toda a partida – inclusive aquelas aparentemente já decididas por placares confortáveis.  Segundo o Marcio, a vitória deveria valer sete pontos e o empate três pontos (os mais apressados vão dizer que se trata de uma desvalorização da vitória, em relação à proporção atualmente praticada.  Peço encarecidamente que esperem e leiam até o final!).  Além disso, para cada gol marcado, o time ganharia um ponto (o empate com muitos gols seria mais valorizado em relação ao empate sem gols, porque jogos com muitos gols são quase sempre mais interessantes que jogos sem gols).  E, para cada gol de diferença no placar, o time vencedor ganharia um ponto extra (o que o incentivaria a jogar para frente ainda que estivesse vencendo com uma margem confortável).  Desse modo, uma partida terminada em 4×2 renderia dois pontos para o time perdedor e treze pontos para o time vencedor, ao passo que uma vitória por 2×0 não renderia nenhum ponto para o time perdedor e onze pontos para o time vencedor.  Uma vitória por 7×1 renderia um ponto para o time perdedor e vinte pontos para o time vencedor – convenhamos, tratar um 7×1 da mesma maneira que um 1×0 é ridículo!  Valoriza-se, claramente, o jogo com mais gols em detrimento do jogo com menos gols; incentiva-se os times a jogar atacando, buscando o gol, mesmo em jogos já resolvidos; o empate deixa de ser um negócio tão bom assim (a não ser um improvável 6×6).  E se acaba, ao menos em tese, com a “eliminação matemática” de um time no campeonato.  A rigor, para ele se recuperar, basta sapecar goleadas nos adversários.  Chances ele sempre terá.

3. Torcida participativa: o torcedor não deve ser um mero cliente do clube, ele deve participar dos destinos do seu time de coração, política e financeiramente.  Ou, ao menos, deve ter a oportunidade de participar.  O modelo de clubes associativos que dizem ter na sua torcida seu maior patrimônio há muito já se mostra esgotado.  Nos locais onde o futebol é melhor jogado atualmente, os “clubes” se tornaram empresas com capital aberto, cujas ações podem ser compradas por quaisquer investidores – geralmente torcedores do clube.  Eles podem votar para eleger presidente e diretores, na proporção de sua participação no quadro social do “clube” (quanto mais investimento, maior seu peso na votação).  O presidente do “clube” deve satisfação aos investidores e os dividendos auferidos pelo clube com negociações, rendas e prêmios por vitórias são divididos entre os investidores.  O “clube” se capitaliza e se profissionaliza; balanços são auditados; busca-se a eficiência dentro e fora de campo; esvaziam-se aqueles protestos ridículos na porta do estádio ou do centro de treinamento; o valor do clube e a sua capacidade de investimento se tornam proporcionais à força financeira de sua torcida e aos seus resultados empresariais.

4. Fair Play financeiro: corolário da ideia anterior, o “clube” – não mais um clube, mas uma empresa de futebol – deve demonstrar que honrou todos os seus compromissos do ano anterior e tem condições orçamentárias de honrar todos os compromissos do próximo ano.  Do contrário, ele deve ser impedido de participar do campeonato.  Simples assim.

5. Liga independente: a organização do futebol e do campeonato de futebol deve ser forte e completamente independente dos clubes.  Quando digo independente, quero dizer independente mesmo.  Atualmente, a presidência da CBF é ocupada por um mandatário eleito pelos clubes e pelas federações.  No modelo de liga, a liga é uma empresa que organiza, administra e aufere os frutos da sua competência empresarial na gestão do produto “campeonatos de futebol” – preferencialmente com controle distinto e independente dos clubes que dela participam.  É assim na Fórmula 1, é assim nas ligas norteamericanas, é assim nas ligas europeias.  Pode notar que a marca da liga – e, consequentemente, do campeonato – é conhecida e distinta, tanto quanto a dos clubes que dela participam.  A F1, por exemplo, é uma marca distinta da Ferrari, da McLaren, da Williams…  A NBA é uma marca distinta dos Bulls, dos Lakers, dos Knicks…  A Premier League é uma marca distinta do Chelsea, do Manchester United, do Arsenal…  A Bundesliga é uma marca distinta do Bayern de Munique, do Borussia Dortmund, do Shalke 04…  E eu poderia enumerar mais um monte de exemplos por aqui para ilustrar a tese.

6. Direitos televisivos: dividir cotas de televisão igualitariamente é o mesmo que implantar o comunismo no futebol – e nós não vivemos numa sociedade comunista, nem o comunismo é a ideia trazida nos dois itens anteriores.  Ou a ideia é premiar os mais competentes (modelo europeu) ou a ideia é proporcionar um revezamento entre os times (modelo norteamericano, onde a preferência no draft é concedida ao time pior classificado no ano anterior, só para citar um exemplo).  Prefiro o modelo europeu, com critérios objetivos bem claros e negociados entre todos os clubes que desejam participar do campeonato – quem não topar, não participa (a ideia anterior, da liga independente e forte, é fundamental). Quem der mais audiência no ano anterior, ganha mais cotas de televisão, proporcionais à sua audiência.  Mas, para isso funcionar, os jogos não podem ser exibidos no mesmo horário.  Há que se escalonar as partidas de modo que elas não se sobreponham e haja um rodízio objetivo, equilibrado e aleatórios na disputa pelos melhores horários (os chamados “horários-nobres”), além de se permitir que mais de um canal de televisão transmita os jogos (também com rodízio aleatório, objetivo e equilibrado).  Assim, os direitos de transmissão devem ser contratados pela liga junto às emissoras e repassado posteriormente aos clubes.

7. Extinção dos estaduais: campeonato estadual é igual jabuticaba – só existe no Brasil.  Justificava-se a sua existência na época em que não havia aviação comercial, as distâncias eram grandes, a comunicação não era fácil, não existia transmissão ao vivo via satélite…  Hoje em dia, não há razão para sua existência.  Os clássicos locais continuarão a existir – os derbies -, como em qualquer outro lugar do mundo: River Plate x Boca Juniors, Internazionale x Milan, Lazio x Roma, City x United, Real x Atlético, Benfica x Sporting.  Se bem promovidos, podem ainda resultar em boas disputas, especialmente se realizados em jogos mata-mata (vide ideia 1).

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One Comment

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  1. Concordo com tudo, à exceção do sistema de pontos, que achei exagerado. Exemplo prático de um jogo com muitos gols pode ser sacal foi Espanha 10×0 Haiti, pela Copa das Confederações de 2013; também tem muito 0x0 que é melhor de ver do que jogos com gols. Talvez aumentar a pontuação da vitória seja interessante para estimular os times – o aumento de 2 para 3 pontos foi motivado por isso -, mas eu achei a proposta um pouco demais.

    Aquele 10×0 não é parâmetro porque os times não são da mesma “divisão”. Fosse um campeonato sério, não aquela papagaiada de regime de cota da Fifa, aquilo não aconteceria.

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