Tinder

Havia tantos lugares disponíveis no ônibus, mas foi justamente do meu lado que a gordinha resolveu se sentar.  Estava cheirosa, aparentando banho recém-tomado, mas os braços expostos por uma blusa sem manga insistiam, por absoluta falta de espaço, em me empurrar para o fora do banco.  Sim, porque ela se sentou na janela e eu permaneci no corredor.  Na pior das hipóteses, bastaria eu me levantar; melhor do que ficar imprensado entre o martelo e a bigorna.

Situação estabilizada, a viagem prosseguiu.  Eu lendo meu e-book no celular.  Ela sacou o seu celular da bolsa e foi direto para o WhatsApp.  Em determinado momento da viagem reparei que a agilidade de seus dedos no WhatsApp era inversamente proporcional à agilidade provável de seu corpo durante um exercício físico qualquer.  Alheia a tudo que acontecia que não aparecesse na tela do celular, nem percebeu que eu comecei a xeretar a conversa.

A conversa se desenrolava com um tal de Marcelo Tinder.  O sobrenome Tinder não é comum entre brasileiro – e mais acho que não preciso dizer.  O pouco que consegui ler da conversa girava em torno do agendamento de um encontro entre eles no fim do dia e a antecipação de detalhes tórridos do encontro, que me fizeram imaginar coisas a respeito do tal Marcelo, que iam desde “pobre coitado, não sabe com quem está falando, ela ter mandado para ele a foto de uma prima” até “o maluco tem disposição“, passando por “é óbvio que ele vai dar um bolo nela“.

Ao entender do que se tratava, por apelo da ética e das náuseas, parei de acompanhar a conversa e concentrei-me no meu e-book até o fim da viagem.

—– x —–

Hora do almoço, saí para almoçar com um colega de trabalho.  Fomos num restaurante longe, comemos bem, na volta passei na sorveteria e comprei uma bola de sorvete.  Ele não quis nada.  Um calor dos infernos fazia no Rio de Janeiro, sorvete deixou de ser artigo de luxo e ganhou status de gênero de primeira necessidade.

Ainda com o copinho de sorvete na mão – copinho porque, nesse calor, metade do sorvete ia derreter antes de eu terminar de consumi-lo, e eu queria ao menos bebê-lo, ao invés de permitir que ele escorresse pelas minhas mãos e pingasse nos meus sapatos – tomamos o rumo de volta ao trabalho.

– Psiu!  Marcelo!

O meu colega olhou para o lado e eis quem o chamava: tcharararam!!!  Ela!!!  A inesquecível gordinha do ônibus!…  que não me reconheceu, obviamente, porque eu não havia sido páreo para a concorrência com o Marcelo Tinder.  Evitei olhar, virei-me, disfarcei.  Nem fiz questão de ouvir.  Conversaram um bocado, enquanto eu finalizava meu sorvete, já derretido, rindo sozinho daquela situação.

– Então tá, mais tarde a gente se encontra!

E terminaram a conversa.  Continuamos a caminhar e ele começou a falar dela, dizendo que já haviam trabalhado juntos há muito tempo, depois nunca mais se viram até que se encontraram por acaso na semana anterior e…

Peraí: o Marcelo era ele!

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4 Comments

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  1. Que o mundo é um ovo de codorna a gente já sabe, mas eu acho que “Tinder” pode não ser o sobrenome dele, mas sim o aplicativo de encontros amorosos e/ou casuais para celulares que faz sucesso hoje em dia, que ela colocou nos contatos como referência.

    O tal “sobrenome” é justamente o que torna a história interessante.

  2. De onde menos se espera…
    Torço pro Marcelo não ler o seu blog!

    Isso é um conto. Marcelo é um personagem fictício.
    Será que eu sempre tenho que explicar tudo?…

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