Salva vidas

Sentado numa sala de espera, ontem de manhã, eu assisti sem som um daqueles programas matinais horrorosos, estrelados por papagaios falantes, com receitas de bolo, consultoria de médicos e outros desserviços à humanidade.  Numa das matérias apresentadas, o personagem central era o salva vidas – aquele bombeiro cuja missão é resgatar pessoas do afogamento no mar.  Dava para perceber, pelo visual da reportagem, que a mensagem da bombeiro (era uma mulher) entrevistada era de que o mais importante era o trabalho preventivo, evitando que as pessoas se expusessem ao risco do afogamento.  E aí lembrei de uma história.

Eu era um molecote de 14 ou 15 anos e estava numa manhã cinzenta de verão na Praia da Macumba, no Rio de Janeiro.  Chovia um pouco, e o vento contribuía para uma sensação de frio.  Lembro que eu estava de casaco de moletom.  Sentado lá em cima do deck situado nos fundos de um daqueles quiosques de madeira – que já não existem mais – eu observava a praia, as ondas enormes e cheias de espuma, e a solitária bandeira vermelha tremulando incansável ao sabor do vento.  Qualquer carioca sabe que bandeira vermelha na areia é sinal de que entrar no mar não é boa ideia.  E olha que, naquele dia, nem precisava.

O papo estava animado.  Junto comigo, ali no deck, o bombeiro (salva-vidas), o dono do quiosque e um amigo.  Não havia uma viva alma na areia.  Só aquele marzão, aquelas ondas, o barulho alto que elas faziam ao quebrar, e o vento que vinha da nossa direita.

Sem que eu percebesse o motivo, o bombeiro interrompeu o papo e desceu do deck até a areia.  Ele fora ao encontro de um surfista – também de uns 14 ou 15 anos, como eu – que acabara de chegar e ainda estava andando em direção à beira da praia, com sua prancha debaixo do braço.  E o bombeiro falou tão alto – por causa do barulho das ondas – que nós pudemos ouvir o discurso.

– Cara, tem certeza que você vai entrar?  Tá sinistro mesmo, não é exagero meu.  Eu cheguei cedo, 5h da manhã, dei um mergulho e quase não consegui sair.  Isso eu que sou salva-vidas.  Segura a onda hoje, cara, fica aqui, não entra.  Vai por mim.

O surfista mal olhava o bombeiro.  Só contemplava o mar e a prancha, a esta altura já fincada na areia, na beira da praia, enquanto amarrava o strep na canela.  O pouco que respondia, parecia ser apenas um:

– Tá tranquilo, tô de prancha.  Não vai acontecer nada não.

O bombeiro voltou para o deck coçando a cabeça, chateado.  Chegou fazendo discurso e contando o teor da conversa que nós já sabíamos porque havíamos ouvido.  E foi dali que vimos, calados, ele fechar o neoprene, pegar a prancha e se jogar no mar.  O nosso silêncio, quase funerário, parecia preconizar o que iria acontecer.  Na primeira onda, ele caiu, o strep arrebentou e o meu colega bateu nas costas do bombeiro e disse:

– Vai lá, mermão!  É contigo agora.

O bombeiro resmungou um palavrão impublicável dirigido à mãe do surfista e saiu em disparada pela areia, calçou o pé de pato com uma agilidade impressionante e se lançou ao mar.  Alcançou o moleque e o rebocou de volta para a areia com maestria, segurança e alguma truculência.  O garoto caiu de quatro na areia fofa, já longe da água, e parecia ter dificuldade de achar o ar necessário para respirar.  O bombeiro ali do seu lado, aguardava, também ofegante.

Quando o garoto se refez e ergueu o corpo, ainda de joelhos, levou um soco na cara e caiu de novo de quatro.

– F*$% da p*#@!!!  Eu te avisei!!!

Em seguida, um chute da cara, de baixo para cima, o fez rolar na areia.

– Eu tenho família, eu tenho mulher e dois filhos para criar!

Daí para frente foi uma sequência de socos e pontapés que eu jamais vira.  Solenemente acompanhada daquela lição de moral em forma de discurso.

– Eu falei para você não entrar, mas você entrou!  Aí eu tive que arriscar a minha vida para salvar a sua!  Você faz da sua vida o que você quiser, mas não meta a minha vida e a vida da minha família nisso, desgraçado!  Isso é para você aprender a ouvir o salva-vidas da próxima vez!  Pede desculpa agora, pede!  Eu só vou parar depois que você pedir desculpa!

Eu já estava achando que ele não iria conseguir pedir desculpas, tanto que apanhava.  Mas conseguiu.  O bombeiro parou, conforme prometido.  Pegou seu pé-de-pato, colocou debaixo do braço, e veio caminhando em nossa direção.  Aplaudido por nós três.

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2 Comments

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  1. Beleza!
    Acho que todo suposto afogado deveria pagar uma taxa bem cara pelo salvamento.
    E se morresse afogado a família deveria pagar o dobro pelo recolhimento do corpo.

    Nem tanto… A família não tem que ser punida pela cagada do cara.

  2. E aquele papo de que “somos Bombeiros, nada do que é humano nos é irrelevante”?! Ele podia ser mais sutil ao mostrar que só salvou o surfista por obrigação… e o pior disso tudo é que eu acredito na história.

    Acredite sim. Ela é verídica. E a reação do bombeiro também foi humana.

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